Ranking da corrupção e empréstimos do Banco Mundial:
Ranking da corrupção e empréstimos do Banco Mundial

* Renata Lins

No dia 22 de agosto, saiu no Globo uma matéria com o título “Bird exigirá combate à corrupção para emprestar”. Algumas observações fazem-se necessárias sobre a referida matéria, já que de há muito deixamos de procurar nas matérias internas dos jornais elementos de análise e reflexão, para contentarmo-nos com a mera repetição das “notícias” divulgadas pelos grandes centros de disseminação da “informação” (in-formação, que forma e molda a cabeça dos que a recebem).

Não é de hoje que a estratégia dos organismos multilaterais tem sido a de condicionar o aporte financeiro ao cumprimento de regras definidas pelos países centrais. Assim foi, por exemplo, no caso da proposta de “troca de dívida por educação”, em que o que estava por trás dessa sugestão aparentemente generosa era uma imposição de abertura do “mercado de educação” às multinacionais do setor, e o desmantelamento final da escola e universidade públicas (sufocadas pela falta de recursos tão generosamente distribuídos ao setor privado).

Neste contexto é que tem que ser considerada essa nova investida contra a soberania dos povos vinda das cabeças coroadas do Banco Mundial (FMI, BID).

Vamos à notícia: “dali por diante a instituição dará ênfase prioritária (...) a medidas para que o dinheiro emprestado (...) acabe nos bolsos dos governantes ou empreiteiros corruptos”, diz o representante do Tio Sam Paul Wolfowitz, que afora brilhos específicos de sua trajetória pessoal já extensamente comentados pela sociedade civil organizada, tem um governo eleito com minoria de votos, num país em que os eleitores aptos são definidos ao sabor da boa vontade dos governantes locais, e que como se sabe invade terras alheias para beneficiar a família de seu presidente com obras vinculadas à extração de petróleo e gás.

Mais: “os empréstimos [serão] condicionados ao grau de risco apresentado por cada país em termos de corrupção”, sendo o dinheiro entregue “equivalente à sua própria [do governo do país tomador] forma e disposição de enfrentar aquele crime”. Fecha aspas. Plus ça change, plus c’est la même chose. Como dizem os lá de cima. Quem define o grau de risco? Como se mede isso? E a “disposição de enfrentar” a corrupção? Basta a palavra e a boa-fé dos governantes? Serão necessários atestados de bons antecedentes? Ou, quem sabe, umas cartas de recomendação escolhidas a dedo?

Não. As “ferramentas” serão “planos de ação anticorrupção”, “presença de conselheiros à implementação dos projetos” (conselheiros? Vindos de onde? Ah, claro. Dos países do Norte. Aqueles, que como vocês bem sabe, são imunes à corrupção...), “além de equipes especializadas no combate à corrupção” (quem mesmo são esses? CIA? Ou os londrinos que mataram Jean Charles de Menezes e só agora começam a reconhecer o tamanho do estrago desnecessário que perpetraram?).

Sábios, sábios grandes irmãos do Norte. Compreenderam que agora não basta financiar ditaduras. É melhor oferecer instrumentos de “combate à corrupção”, através do qual farão o controle direto das economias e das políticas dos países subdesenvolvidos. Subdesenvolvidos por pura falta de vontade de tomar seu destino em suas próprias mãos. Até quando?

*Economista do PACS e da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais. Doutoranda do Instituto de Economia/UFRJ

Veja o artigo em espanhol, traduzido por Maria José (Instituto do Terceiro Mundo - Uruguai)