Representantes de ongs e movimentos sociais da América Latina reuniram-se no dia 20 de setembro de 2006, em São Paulo, com a Corporação Financeira Internacional (CFI) - instituição do Grupo Banco Mundial, que financia o setor privado - para entregar um documento elaborado por várias ongs e movimentos sociais do mundo. O documento intitulado “Basta de Roubo” faz parte das jornadas globais de ação contra as Instituições Financeiras Internacionais (IFIs), no qual milhares de pessoas em todo o mundo foram às ruas, entre os dias 14 e 20 de setembro, justamente no período em que ocorreram as reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial, em Cingapura, para multiplicar o debate sobre os impactos produzidos pelas IFIS sobre os direitos humanos e ambientais. Vale ressaltar que a CFI não aceitou receber as 25 pessoas em seu escritório, querendo limitar a reunião a cinco pessoas. Após muita insistência, a reunião ocorreu com todos os presentes, que ficaram de pé, no corredor do elevador do subsolo.
Sandra
Quintela, do Jubileu Sul, explicou a vinda dos movimentos sociais a
São Paulo e o motivo do protesto contra as IFIs. segundo ela,
o saqueio dos recursos naturais, a destruição do meio
ambiente, a privatização das terras e das águas
e a expulsão dos povos indígenas e da população
ribeirinha de suas terras são motivos suficientes para
milhares de pessoas em todo o mundo protestarem e exigirem mudanças.
Para Sandra a mudança das IFIs só se dará com a
pressão dos povos.
O
documento “Basta de Roubo” foi lido pelo representante do
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), Wesley Ferreira, que
citou as exigências de ongs e movimentos sociais de todo o
mundo com relação às Instituições
Financeiras Internacionais, tais como: se submeter à
realização de auditorias externas de seus empréstimos
e políticas; parem de impor condicionalidades
e de promover políticas e projetos neoliberais; parem
de promover o livre comércio e a privatização
dos serviços públicos e
que cesse o uso de recursos públicos para garantir lucros
privados; anulem
incondicionalmente o total das dívidas demandadas;
interrompam o financiamento de
projetos que destroem o maio ambiente, começando pelas
grandes represas, o petróleo, o gás e o minério
e Ponham fim à política de créditos com
imposição de condições que fazem
recrudescer as crises sanitárias, como a pandemia da AIDS, e
que façam as devidas reparações por práticas
anteriores tais como exigência de pagamentos de cotas aos
usuários de educação pública e dos
serviços públicos de saúde.
Todos as lideranças de ongs e movimentos sociais abordaram os problemas que os projetos financiados pelas IFIS estão causando em seus países. As lideranças indígenas falaram sobre a Iniciativa da Integração de Infra-estrutura Regional Sul – Americana (IIRSA) e como está iniciativa afetará os povos indígenas. Os representantes protestaram contra os projetos financiados pela CFI e explicaram como eles atraem conseqüências negativas para as populações, e exemplificaram alguns destes projetos, como a Maggi e a Aracruz Celulose no Brasil, a CPFL energia (uma das responsáveis pela construção da hidrelétrica de Campos Novos, no Estado de Santa Catarina) e projetos de agronegócio em outros países.
O consultor da CFI, Reginaldo Magalhães, contratado recentemente para melhorar a relação entre a CFI e a sociedade civil, falou do interesse em construir uma agenda de negociação com as organizações, inclusive para que se possa aperfeiçoar o processo político de relacionamento com a sociedade civil de forma mais permanente. Karina Manasseh, gerente de mídia e marketing, se comprometeu a levar o manifesto das ongs e dos movimentos sociais, assim como, um relatório com os principais pontos levantados ao Banco Mundial, não somente em Washington, mas também em Brasília. Karina salientou que uma das razões do CFI existir é de acreditar que pode influenciar o setor privado a fazer coisas melhores, mas afirmou que o IFC como instituição cometeu vários erros, e que o diálogo com a sociedade civil é fundamental. Reginaldo completou ainda que o IFC está implementando mudanças nos seus critérios de avaliação e de monitoramento de projetos para buscar solucionar estes erros que vem sendo cometidos. como parte deste processo, ele afirmou que uma relação mais próxima com sociedade civil é importante para se ter uma avaliação melhor destes impactos e corrigir esses erros previamente.

Reginaldo Magalhães e Karina Manasseh do Banco Mundial usam a camisa contra o Banco Mundial, FMI e BID
Fabrina
Furtado, secretaria-executiva da Rede Brasil, levantou o caso da
Aracruz Celulose e questionou se é um caso encerrado ou se
existe uma possibilidade da IFC assumir alguma responsabilidade pelos
impactos causados e que continuam causando às populações.
Karina respondeu que não sabia muito sobre os detalhes do caso
Aracruz por não estar trabalhando ainda para a CFI, mas que
acredita que a Instituição cometeu erros e que foi um
aprendizado para a CFI. Fabrina respondeu lamentando que este
aprendizado tenha sido à custa de destruição de
vidas e do meio ambiente, e lembrou que o fato da Aracruz ter feito
um pré-pagamento do empréstimo não deveria
livrar o banco de suas responsabilidades pelos impactos já
causados.
Sandra Quintela concluiu a reunião dizendo que os projetos financiados pela Corporação Financeira Internacional são projetos de destruição e de morte, e que buscam exclusivamente o lucro e a exploração. “O que esta em jogo hoje é a sobrevivência neste planeta, não falo somente da sobrevivência para os quilombolas e indígenas, falo de todo o planeta, pois já estamos acompanhando os impactos ambientais e as mudanças climáticas”. Sabemos que as IFIs apenas gerenciam o grande capital, por este motivo queremos uma auditoria externa para conhecermos o nível de corrupção que existe. O projeto das IFIS é antagônico ao projeto que estamos envolvidos, mas está contradição básica será superada, à medida que os povos lutem ainda mais. Temos a grande vantagem de sermos a maioria”, concluiu Sandra.
No final da tarde, os movimentos sociais fizeram panfletagem sobre as jornadas globais contra as IFIs, no vão do Museu de Artes de São Paulo.

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