Os
representantes do conselho estiveram nesta segunda-feira (25), em
Vitória, em reunião para discutir a titulação
de Linharinho, em Conceição da Barra, como território
quilombola.
Para a reunião desta segunda-feira (25),
realizada a partir de 14h, no auditório do Ministério
da Fazenda, foi convidada a Aracruz Celulose. Mas, não os
representantes quilombolas, cuja presença a reunião
desta natureza é assegurada pelo artigo 6º do Decreto n°
4887/03. Determina o artigo do Decreto: "Fica assegurada aos
remanescentes das comunidades dos quilombos a participação
em todas as fases do procedimento administrativo, diretamente ou por
meio de representantes por eles indicados".
Mesmo não
convidados, os quilombolas mandaram alguns representantes à
reunião que questionaram, entre outros pontos, se a região
de Linharinho, em Conceição da Barra, era área
de Segurança Nacional. Neste caso, não restaria dúvida
de que a Secretaria Executiva do Conselho de Defesa Nacional teria de
ser ouvida. Mas não, Linharinho não é área
de Segurança Nacional por não ser região de
fronteira do País, nem área necessária às
Forças Armadas. Tampouco é Área de Preservação
Ambiental, o que demandaria consulta ao Ibama.
Então,
por quê a Secretaria Executiva do Conselho de Defesa Nacional
veio ao Espírito Santo se não discutiu a titulação
como território quilombola no caso da Marambaia, região
utilizada pela Marinha, ou do território quilombola de
Alcântara, no Maranhão, onde existe uma base de
lançamento de foguetes?
A
explicação pode estar na força que a Aracruz
Celulose demonstra nos contatos diretos com a Presidência da
República, onde seus dirigentes são ouvidos. A Aracruz
Celulose rejeita a devolução das terras de Linharinho
aos descendentes dos escravos negros, tanto que contestou o Edital
que o Incra publicou no caso.
O
coordenador da reunião do Conselho de Defesa Nacional, José
Alberto Cunha Couto, secretário da Secretaria de
Acompanhamento e Estudos Institucionais (Saei) do Gabinete de
Segurança Institucional da Presidência da República,
informou após a reunião que a visita ao Espírito
Santo, da qual a reunião desta segunda-feira fez parte da
agenda, seria para subsidiar o primeiro processo sobre territórios
quilombolas que foi encaminhado à Secretaria.
Trata-se,
na avaliação dele, de uma discussão importante,
pois o conhecimento deste processo irá auxiliar em outros
casos semelhantes. Destacou que o Grupo estará em Linharinho
nesta terça-feira (26), às 9h, ouvindo a comunidade.
E
por quê a Aracruz Celulose foi convidada para a reunião,
e os quilombolas não? Cunha Couto explicou que não
queria criar clima para confrontar a representação da
empresa com os quilombolas e, por considerar que os quilombolas terão
oportunidade de serem ouvidos em Linharinho.
E
sobre o prazo de lei, de 30 dias, para manifestação da
Secretaria Executiva do Conselho de Defesa Nacional após
publicação do Edital pelo Incra? Cunha Couto disse que
a reunião está dentro do prazo, uma vez que encaminhou
pedido de informações ao Incra no dia 12 deste mês,
e ainda está sem resposta.
Os
quilombolas, que muito perguntaram na reunião, informaram aos
seus membros dos termos do Decreto n° 4887/03, que não
estão de acordo com Cunha Couto. Atribuem a reunião no
Espírito Santo à força da Aracruz Celulose.
Jô
Brandão (foto), do Marinhão, é da executiva
nacional da Coordenação Nacional de Articulação
das Comunidades Negras Quilombolas (Conaq). Assegurou no Espírito
Santo que o Conselho de Segurança Nacional não foi
ouvido nem quando foram pautadas as discussões sobre
Marambaia, nem sobre Alcântara. E que todos os processos sobre
titulação de territórios quilombolas são
enviados à Secretaria Executiva do Conselho de Defesa
Nacional, até porque esta é uma obrigação
determinada no artigo 8º do Decreto 4887/03.
Ela lembra
que o Art. 8o determina: "Após os trabalhos de
identificação e delimitação, o INCRA
remeterá o relatório técnico aos órgãos
e entidades abaixo relacionados, para, no prazo comum de trinta dias,
opinar sobre as matérias de suas respectivas competências:
I - Instituto do Patrimônio Histórico e Nacional -
IPHAN; II - Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos
Naturais Renováveis - IBAMA; III - Secretaria do Patrimônio
da União, do Ministério do Planejamento, Orçamento
e Gestão; IV - Fundação Nacional do Índio
- FUNAI; V - Secretaria Executiva do Conselho de Defesa Nacional; VI
- Fundação Cultural Palmares. Parágrafo único.
Expirado o prazo e não havendo manifestação dos
órgãos e entidades, dar-se-á como tácita
a concordância com o conteúdo do relatório
técnico."
Os quilombolas lembram que o Incra
publicou o Edital sobre Linharinho no Diário Oficial da União
(DOU) no dia 13 de abril de 2006.
Os
quilombolas, com argumentos como este, apontam que a Aracruz Celulose
mostrou imenso poder de articulação junto à
própria Presidência da República para realizar
esta reunião no Espírito Santo.
Mas
lembram também que as pesquisas sobre Linharinho, realizada
sob a coordenação da Universidade Federal do Espírito
Santo (Ufes), confirmaram que Linharinho é território
quilombola. Dos descendentes dos escravos negros foram tomados
9.542,57 hectares. Apenas 41 famílias quilombolas conseguiram
resistir à ocupação da região, à
frente a Aracruz Celulose com os seus eucaliptais.
A
devolução destas terras aos quilombolas é
determinada pelo o art. 68 da Constituição Federal,
regulamentado pelo Decreto 4887/03.
No
total, os quilombolas têm direito a cerca de 50 mil hectares de
terras no Espírito Santo. Além de Linharinho, é
quilombola a região de São Jorge (13 mil hectares do
território); São Domingos/Córrego de Santana,
12.596 hectares; em São Cristovão/Serraria, o
território quilombola é de 8.500 hectares e, em Córrego
Angelim, 12.945 hectares, todos em Sapê do Norte, território
formado por Conceição da Barra e São Mateus.
As
pesquisas determinadas por lei, contratadas pelo Incra e realizadas
sob a coordenação da Ufes apontam que os negros foram
forçados a abandonar suas terras. Em Sapê do Norte
existiam centenas de comunidades na década de 70, e hoje
restam 37. Ainda na década de 70, pelo menos 12 mil famílias
de quilombolas habitavam o norte do Estado: atualmente resistem entre
os eucaliptais, canaviais e pastos cerca de 1,2 mil famílias.
Em todo o Espírito Santo existem 100 comunidades quilombolas.
Pesquisas
também confirmaram serem dos quilombolas 500 hectares de São
Pedro, em Ibiraçu, e 1.500 hectares em Monte Alegre, em
Cachoeiro de Itapemirim.
Fonte: Século Diário - ES

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