FMI: reformas que não mudam nada
O
Fundo Monetário Internacional (FMI) apresentou na reunião
em Cingapura uma proposta de reformulação. O
diretor-gerente do FMI, Rodrigo de Rato, propôs nova estratégia
de médio prazo que foi o grande tema da assembléia
anual.
Na
tentativa de superar a crise financeira, de papel e de legitimidade
do FMI, a estratégia de reforma inclui consultas multilaterais
sobre assuntos de “importância global ou regional, novos
esquemas de monitoramento de mercados, novas formas de “apoio” às
economias emergentes e maior atenção aos países
pobres”. Com as consultas multilaterais, o FMI pretende criar um
instrumento para análise e para construção de
consenso sobre políticas que impactam a “estabilidade global
ou regional”. O interesse do Fundo com essas reformas é a
consolidação deste como protagonista no sistema
econômico internacional. Essa estratégia envolve o
aumento do monitoramento sobre as economias nacionais; controle mais
aprofundado das economias consideradas emergentes; aumento da
influência nos países de baixa renda; incremento dos
serviços de assistência técnica e cooperação
para garantir a implementação das políticas de
interesse do Fundo.
A
primeira experiência, já iniciada, envolveu, até
agora, conversações bilaterais do pessoal do FMI com os
governos da China, da zona do euro, do Japão, da Arábia
Saudita e dos EUA. Atendendo os interesses dos EUA, o objetivo é
encontrar formas de reduzir os desequilíbrios dos balanços
de pagamentos principalmente o rombo nas contas externas
norte-americanas e o câmbio chinês subvalorizado. A China
continua a repelir as pressões dos EUA para valorizar o yuan.
Nos próximos meses, segundo Rato, o FMI vai promover
mesas-redondas com a participação dos principais
envolvidos. Se a iniciativa der certo, o Fundo ganhará novo
status como foro internacional de análise, discussão e
formulação de políticas.
Uma
das principais reformas discutidas foi a de reformulação
das cotas. Das cotas do FMI depende não só o poder de
voto de cada sócio, mas também o montante para
empréstimos nas várias modalidades de empréstimos
fornecidos pelo FMI.
Com 90% dos votos, China, Coréia, México e Turquia
tiveram um aumento no número de suas cotas o que resultaria a
priori em uma nova fórmula para divisão do capital e
poder de voto. Com essa reformulação, para aumentar
suas cotas, estes países passarão a contribuir
com mais dinheiro ao Fundo melhorando o balanço financeiro do
Fundo atualmente deficitário. Nos próximos três
anos, as receitas do FMI podem cair para US$ 757 bilhões e as
despesas subir para US$ 1 trilhão. Isso se dá porque
alguns dos seus principais “clientes” (como Brasil e Argentina),
sendo bons alunos, tiveram superávits primários
elevados capazes de aumentar suas reservas internacionais para
possibilitar o pré-pagamento das suas dividas. De
qualquer forma, com essa “reforma” os países majoritários
preservaram sua primazia nos processos decisórios.
Na
verdade, o aumento das cotas favorecerá países
avançados como Estados Unidos, Alemanha e Japão, que já
têm enorme influência nas decisões do FMI e podem
até mesmo receber cotas maiores com a nova fórmula. Com
17% dos votos no Fundo, os EUA têm poder de veto sobre as
decisões mais importantes, que em geral precisam de pelo menos
85% dos votos para entrar em vigor. Os EUA negou a possibilidade de
comprarem mais cotas enquanto que os alemães já
afirmaram que não renunciarão ao direito de ter mais
votos e os japoneses não se definiram.
Outro
critério para definição de cotas, que deverá
ser levado em consideração, é o grau de abertura
das economias, medido de acordo com sua participação no
comércio mundial e nos fluxos de capital. Dependendo de como a
conta for feia, países como a Holanda e a Bélgica
sairão ganhando.
O
Brasil e outros insatisfeitos gostariam que a fórmula desse
peso a outro fator, o grau de vulnerabilidade dos países a
choque externos. Embora compartilhe das preocupações do
grupo do Brasil, muitas nações em desenvolvimento
votaram a favor da resolução proposta pelo Rodrigo
Rato, por outras razões. Alguns países asiáticos
sentem-se favorecidos pela proximidade com a China e a Coréia
e não queriam ir contra medida que as beneficie diretamente.
Brasil não consegue reunir votos para impedir a aprovação da reforma das cotas
O
Brasil e outros 22 países em desenvolvimento como
Índia, Argentina e Egito, votaram
contra, mas foram incapazes de reunir votos suficientes para impedir
a passagem da resolução. Com a reforma , a cota do
Brasil cairá de 1,42% para 1,40%. O G-7 - grupo dos sete
países mais ricos do mundo – tem juntos, 45,32% das cotas do
Fundo. Já Brasil, Argentina, Índia e Egito totalizam
apenas 4,8% dos votos. Os quatro países: China, México,
Turquia e Coréia, que têm 5,33% das cotas do Fundo. Com
a mudança, passam a cerca de 7%.
O ministro da Fazenda, Guido Mantega, fez críticas com relação a proposta de reforma do FMI e disse que o FMI está com dificuldades para se adaptar aos novos tempos, e poderia cair em tamanha crise de legitimidade que alteraria o significado da sigla em inglês para o nome da instituição (IMF) de International Monetary Fund para “I'M Finished”, expressão que traduzida quer dizer "eu estou morto, acabado”.
Mantega
também disse que o FMI
caminha a passos lentos para se modernizar, enquanto que a economia
globalizada avança de maneira célere. Em suposto ato
falho, fez uma analogia ao que considera uma reforma tímida:
"A montanha pariu um rato".
Banco
mundial aprova política anticorrupção
O Banco Mundial aprovou em Cingapura sua política de Governabilidade e Anti-corrupção que desde que Paul Wolfowitz assumiu a presidência do Banco há um ano e meio,vem sendo um das suas principais bandeiras. A proposta envolve o condicionamento de empréstimos ao grau de risco apresentado por cada país em termos de corrupção. Risco esse definido pelo Banco Mundial! Os critérios para definir corrupção são arbitrários e a iniciativa acaba prejudicando mais a população do que os corruptos. Além disso, o Banco Mundial não têm capacidade nem legitimidade para ser o arbitro imparcial da corrupção. Sua própria história tem sido repleta de casos de corrupção tanto interna quanto externa. E não é de hoje que a estratégia dos organismos multilaterais tem sido a de condicionar o aporte financeiro ao cumprimento de regras definidas pelos países majoritários (leia-se EUA).
Através
das condicionalidades, o Banco Mundial, junto com outras instituições
financeiras multilaterais, tem historicamente trabalhado no sentido
de defraudar
em trilhões de dólares países em desenvolvimento
do mundo inteiro, emprestando-lhes mais dinheiro do que eles poderiam
pagar para depois se apossar das suas economias. Enquanto vem
atuando
em nome do "alivio a pobreza" na verdade implementa
políticas que
promovem os interesses dos governos, empresas e bancos dos EUA! Além
disso, o Banco tem na sua lista de melhores clientes ditadores como o
Shah no Irã, Mobutu de Zaire, Marcos da Filipinas, Suharto da
Indonesia e Pinochet no Chile e a ditadura da Guatemala. Se o Banco
quer trabalhar pela governabilidade e lutar contra corrupção,
que comece por ele mesmo, inclusive se responsabilizando pelos erros
do passado e do presente. A luta contra a corrupção é
importante demais para deixar nas mãos de um organismo
unilateral como o Banco Mundial!
Vale ressaltar que depois de várias críticas tanto da sociedade civil quanto de países membros, a estratégia aprovada acabou senso menos ambiciosa que a proposta inicial do Paul Wolfowitz.
Durante discussões em torno da política de governabilidade e anti-corrupção, o Banco lançou um estudo realizado em 200 países para aferir o grau de transparência em termos de responsabilidade do setor público, controle da corrupção e aplicação da lei, entre outros. Para o Banco o governo brasileiro não atinge os dois primeiros níveis de avaliação em nenhum dos seis quesitos: liberdade de expressão e de voto, estabilidade política e ausência de violência; eficácia da ações do governo; qualidade do sistema regulatório da economia; eficácia das leis e controle da corrupção. Os mais baixos conceitos foram para estabilidade política (41), eficácia das leis (43) e controle da corrupção (48). Nada menos que 105 dos 208 países pesquisados combatem melhor a corrupção que o Brasil.
O
FMI também divulgou o Panorama Econômico Mundial do FMI,
apresentado durante a reunião anual em Cingapura. Segundo o
relatório, a economia mundial está prestes a
acumular o maior período contínuo de crescimento desde
a década de 70, em torno de 5%, como média mundial dos
últimos três anos. Em referência à economia
brasileira, o Fundo acredita que o desempenho do País foi
"decepcionante": previsão de 3,6% neste ano.
O
diretor-adjunto do departamento de pesquisa do FMI,
Charles Collyns, disse que os gastos públicos cresceram
"rapidamente no Brasil nos últimos dois anos".
Collyns relacionou esta decisão do governo com o aumento da
arrecadação de impostos, um fato que, segundo ele,
"abriu algum espaço para os gastos". E insistiu na
qualidade desses gastos mencionando as "restrições
no modo como são alocados". O diretor do Fundo reconheceu
que o Brasil tem sido um bom aluno por fazer muito nos últimos
anos "em termos macroeconômicos" para crescer de
maneira sustentada tanto em responsabilidade fiscal como no controle
da inflação. Collyns foi mais longe ao afirmar que o
spread cobrado pelos bancos brasileiros (o maior do mundo) reflete o
"extenso crédito dirigido e as grandes reservas sem
remuneração". As lideranças do setor
financeiro sorriram satisfeitas com a ajuda inesperada. No final, o
diretor do Fundo observou que o Brasil está bem posicionado,
reduzindo "progressivamente" a taxa de juros.
Rodada
Doha ganha reforço político durante reunião em
Cingapura
A
rodada de Doha se tornou uma das bandeiras mais importantes do
encontro, apesar da ausência em Cingapura dos principais
negociadores comerciais.
O
grupo de nações ricas quer a retomada da rodada de Doha
o quanto antes, para conquistar um pacote abrangente na agricultura,
produtos industriais, serviços - incluindo serviços
financeiros - propriedade intelectual e regras comerciais da OMC.
O
secretário do Tesouro norte-americano, Henry Paulson, não
vê como obstáculo o vencimento em junho de 2007 do
mecanismo de Autoridade de Promoção Comercial - que
agiliza a aprovação de acordos comerciais no Congresso
dos EUA.
O
ministro da Fazenda, Guido Mantega, disse que o Brasil também
está disposto a fazer concessões nas negociações
da OMC desde que os Estados Unidos e a União Européia
melhorem suas ofertas de abertura para seus mercados agrícolas.
Representantes
de organizações da sociedade civil são proibidos
de entrar em Cingapura
Com
base em decisões unilaterais e arbitrárias, o governo
de Cingapura proibiu de participar da reunião anual do FMI e
Banco Mundial, em Cingapura, em torno de 28 ativistas e 14
organizações não-governamentais. A brasileira
Maria Clara Soares, economista da ONG ActionAid, foi deportada de
Cingapura. Algumas dessas ONGs tinham reuniões formais
agendadas com funcionários do FMI
e do Banco Mundial e outras
com registro para participar da reunião oficial das
instituições. Diante deste contexto o Banco Mundial e
FMI foram ausentes, incapazes de assegurar o direito da sociedade
civil de democraticamente participar das reuniões. Alias, são
eles os grandes responsáveis. A verdade é que esses
instituições escolhem os países cede das suas
reuniões de forma estratégica, exatamente para
controlar as mobilizações e protestos. A escolha de
Cingapura – um país conhecido por violações de
liberdades civis e direitos humanos – demonstra que na verdade o
Banco Mundial e FMI não têm interesse em dialogar com a
sociedade civil. Não é a primeira vez que isso acontece
– a última reunião fora de Washington ocorreu nos
Emirados Árabes.
Estas
medidas de segurança por parte do governo de Cingapura e a
cumplicidade dos organismos multilaterais, levaram 163 organizações
de Ásia, África, América Latina, Europa e
Oriente Médio a boicotar a reunião oficial do Banco
Mundial e FMI.
Mais
informações:
http://www.choike.org/nuevo/eventos/38.html

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