O Madeira, o maior
afluente do Amazonas está ás vésperas de ser
leiloado. Furnas/Odebrecht irão colocar as malhas iniciais do
Complexo do Madeira, um projeto da IIRSA- Iniciativa de Integração
da Infra-estrutura Regional Sul Americana, com o objetivo de
implantar um corredor bioceânico através de uma
hidrovia industrial galgada em direção ao Pacífico
sobre quatro hidroelétricas. Santo Antonio e Jirau são
as primeiras. Em Porto Velho se dá a ignição da
incorporação desse território sob nova
diretoria, sob nova jurisdição, e nova base econômica.
Esse seria o motivo para tanto escondem o Complexo por debaixo das
hidroelétricas?
Os patrocinadores do Complexo,
unificados pelo BID- Banco Interamericano de Desenvolvimento,
oferecem as pontas do Projeto de país a país,
promovendo, por um lado, alianças cristalinas com os setores
economicamente “dinâmicos” da região, (ou seja os
setores monopolistas)e, por outro, alianças veladas com os
Estados e dentro deles. Conseqüentemente, alianças com as
forças políticas que mantém o registro público
daquele pacto de dominação vigente. O que estou dizendo
é que o segundo Governo Lula , consubstanciando sua aliança
estratégica com o capital financeiro e com o agronegócio,
Blairo à testa, está sendo obrigado a entregar o
Madeira como prova de compromisso. Prova de que o enclave econômico
será também enclave político. As barramentos de
Santo Antonio e Jirau, apresentados como solução para o
Apagão, são na verdade dois degraus serviçais
para passagem da sangria nacional, que não mais será
sangria, mas fluxo “natural” de um corpo econômico
transnacional em formação nessas bandas.
Por
isso é muito compreensível que um Governo capaz de
dissimular tão bem sua capacidade de entrega, tenha enviado o
historiador Francisco Teixeira empenhar um palavreado, que já
valeu muitas vidas, na defesa desse pacto de desterritorialização
do Madeira e do chamado corredor noroeste. O bacharel enviado para
cantar loas ao empreendimento, começa dizendo que as Usinas
seriam um “passo fundamental para superar o isolamento da região”.
Isolado em relação ao centro, cara-pálida. O
retrato do colonizado nos olhos do colonizador. A Amazônia como
ilha, barreira, obstáculo. E lá vem eles nos “salvar”
com energia barata para servir a industria multinacional do alumínio,
nos “salvar”com hidrovias, represas e estradas para os cinturões
de monocultivos, nos salvar do passado e nos trazer o futuro. Se o
“futuro do Brasil mora em Rondônia”, como diz o Vaz Caminha
emprestado, é apenas casualidade que estejam fazendo disso
aqui um imenso ralo?
Pela magnitude do Projeto do Complexo do
Madeira, sua operacionalização demanda ajustes
institucionais, na verdade esgarçamentos institucionais, a
partir do licenciamento ambiental. Exatamente por esse motivo é
que a flexibilização da regulamentação
ambiental tornou-se agenda consensual e prioritária do setor
de infra-estrutura altamente concentrado, do agronegócio, do
sistema financeiro internacional, e do Governo Federal. A pedra de
toque do “novo ciclo de crescimento” impulsionado por
investimentos em plataformas de infra-estrutura voltadas para
exportação. O licenciamento das usinas do Madeira será
o marco dessa partilha de soberania, servindo como referencial
facilitador, uma senha para o enquadramento da Amazônia nos
eixos programados pelos grandes projetos previstos para a região
e que estão na fila do Madeira: Belo Monte o próximo.
Por isso o historiador convocado a narrar a história da
dominação, edulcorada e estendida ao futuro , precisa
“realizá-la” no próprio discurso, de modo
publicitário, dizendo que a questão é
“transformar o Projeto Madeira em um paradigma do desenvolvimento
auto-sustentado.”
O paradigma é submeter-se ao
cronograma, métodos e dinâmicas dos grandes
investidores, proporcionando acumulo de capital suficiente para que
políticas compensatórias ganhem eficiência em
igual medida. A sustentabilidade que querem garantir é a dos
negócios, e os negócios precisam de estoques naturais e
de estoques sociais. Por isso as áreas de reserva e de
proteção serão geridas na área do Projeto
sob a vigência de um regime de concessão de florestas
que institucionaliza a formação de reservas de “capital
natural” e de um regime fundiário obediente à lógica
da regularização da expansão do latifúndio
monocultor e pecuarista. Por isso, tantas promessas de benefícios
sociais antecipadas com subempregos temporários, cestas e
bolsas-família. Por isso a instrumentalização
das elites políticas locais instrumentalizando ambos campos. O
Governador Cassol com fortes vínculos com o agronegócio
e com Blairo, é empresário do setor hidroelétrico.
O PT local apesar de ainda contar com algum oxigênio de vida
social não consegue e não pretende construir um projeto
que ultrapasse a assimetria vigente, por isso, através de seu
Prefeito Roberto Sobrinho, tenta otimizar os aspectos mitigatórios
e compensatórios do Projeto, de forma a catapultar o
Partido à sucessão do Governo daqui a 4 anos. A vil
disputa pela paternidade do Projeto e pela intermediação
de seus benefícios condicionais, deixa a população
desguarnecida, à mercê da sanha dos patrocinadores do
Projeto, barateada como moeda de troca em nome de uma “agilidade”
do licenciamento ambiental. A lógica é a da venda da
alma: quem entrega mais e primeiro, será intermediário
do novo dono em igual proporção.
O IBAMA que
deveria executar a política ambiental está sendo
obrigado a conjugar e verbo e a função em sua forma
literal, seguindo um ritual já coreografado de certificação
desse novo “paradigma” de licenciamento da barbárie
sócioambiental. A Ministra Marina, que já tinha se
manifestado contra a hidrovia industrial do Madeira, foi lembrada que
calada já estava incorreta. Aliás, o mesmo status que
querem dar à regulamentação ambiental no Brasil.
A existência desses de tais instrumentos já representam
estorvo suficiente para os agentes funcionalizadores do território.
Por isso precisamos mutilá-los progressivamente a fim de
retirar da população os instrumentos e a capacidade de
defender seu modo de vida e seu território.
As
Audiências Públicas do Madeira foram o palco para essa
auto-imolação em nome dos investimentos privados. Os
estudos de impacto ambiental e o relatório de impacto
ambiental - que deveriam constituir uma peça de compromisso
entre empreendedores, Estado e a população,
incorporando as externalidades sócioambientais no Projeto
submetendo-o depois ao escrutínio social - são uma
fraude. Os indicadores sobre impactos sociais, perda de economia de
várzea, anulação de memórias e de
identidades, ritmos de sedimentação e erosão,
contaminação por mercúrio, qualidade da água,
eliminação de biodiversidade foram encaixotados e
padronizados a partir da adoção de metodologias e
amostragens reconhecidamente inadequadas. O EIA-RIMA e os estudos
complementares que nada complementam, solicitados pelo IBAMA, estão
sob contestação pública e técnica.
É
um escândalo que o IBAMA tenha permitido a apresentação
desses estudos nessas condições, e maior escândalo
ainda enviar para essas Audiências o próprio Diretor
nacional de Licenciamento Ambiental, Luiz Felipe Kunz para tratorar o
processo de licenciamento prévio. O Ministério Público
em articulação com a sociedade civil, em ação
cautelar cancelou duas dessas Audiências. A liminar exigia a
adequação dos estudos e o prazo adequado( e
acessibilidade) para a socialização das informações
neles contidas, antes da convocação de novas
Audiências. No dia 8 de novembro, sai a liminar. Nesse mesmo
dia e no seguinte, em Abunã e Mutum-Paraná, Luis Felipe
insiste em iniciar as Audiências, e é o MAB, o
movimentos dos atingidos que o obriga a cumprir a liminar. Dia 09 de
tarde, a República nunca viu tanta preocupação
em derrubar uma liminar. O pacto de desterritorialização
do Madeira estava em questão e continua. Porque as Audiência
de Jacy-Paraná e de Porto Velho deixaram claro que foram
criadas como espaço de figuração, não de
participação. A visão idílica apresentada
pelo historiador cria os personagens de que precisa para fazer sua
tortuosa defesa de um Projeto que pretende aterrissar a ferro e fogo
no território nacional e regional, depois de loteadas suas
esferas institucionais.
Luis Fernando Novoa
Sociólogo,
membro da Rede Brasil- Vigilância de Instituições
Financeiras
Professor da Universidade Federal de
Rondônia
l.novoa@uol.com.br

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