Carlos Tautz
A segunda Cúpula de Presidentes da Comunidade Sul-Americana de Nações (CSN), que começou no dia 08 de dezembro em Cochabamba, Bolívia, teve, pelo menos, quatro grandes desafios pela frente: construir a conexão física entre os 12 países da região; integrar energeticamente a América do Sul, para que a região em conjunto possa se desenvolver, superar as desigualdades e a pobreza, e incentivar as várias identidades culturais dos seus povos.
A declaração final do evento, que já está praticamente concluída, está organizada em torno desses quatro pontos. O texto foi finalizado em uma reunião de vice-ministros de Relações Exteriores, que também elaboraram um plano de ação para alcançar essas metas.
“Assim, seremos capazes de constituir o quarto grande bloco do planeta, ao lado do Nafta, da Uniao Européia e da Ansean, a associação de países da Ásia e do Pacífico”, resumiu o diplomata chileno Luis Maira, que ajudou a redigir a declaração.
Não
será uma tarefa fácil alcançar essas metas – e
não apenas pelo fato de
serem ambiciosas. Mas, também, porque ainda não está
claro se os governos
da região assumirão a idéia da CSN, apesar de
todos(as) se mostrarem
dispostos em aderir à idéia de integração
regional.
O
presidente argentino, Nestor Kirchner, por exemplo, só
confirmou a presença, poucas horas antes da abertura oficial da cúpula,
se participa
do evento.
A
incerteza sobre a presenca do mandatário argentino se deve a
uma desconfiança
tradicional que um evento como esse desperta. A comunidade foi
proposta pelo Brasil em 2004 e considerada por Brasília como a prioridade
da sua política externa. Argentina e Brasil vivem relações
de amor
e ódio que vão muito além do futebol.
Isso
não impede que os dois países tenham dado passos
importantes no sentido
da integração econômico-financeira do continente.
“Em janeiro de 2007,
Argentina e Brasil comprarão produtos um do outro utilizando apenas
o peso e o real, sem a intermediação do dólar”,
informou Augustin
Colombo,
chefe de gabinete da chancelaria argentina.
Essa
estratégia antecipa e facilita a proposta de criação
de um banco de desenvolvimento
mantido por países da América do Sul, utilizando como lastro
apenas moedas locais. A proposta também vai na mesma direção
do chamado
Banco do Sul, cujos contornos vêm sendo delineados por vários bancos
centrais da região mas, em especial, pelos da Argentina e da Venezuela.
Augustin
também adiantou que os vice-ministros definiram, sem fixar datas,
que, pela ordem, a Colômbia e Chile sediarão as próximas
cupulas da
CSN.
Nesta última sexta-feira (08/12), em evento na Cupula Social pela Integração dos
Povos, o secretário-geral
(vice-ministro) do Ministério das Relações
Exteriores do
Brasil, Samuel Pinheiro-Guimarães, avaliou que a CSN será
implantada de
acordo com “as pressões que os governos da região
receberem de organizações
da sociedade”.
A
cúpula social, organizada por movimentos sociais e
organizações não-governamentais
da América Latina, começou no dia 6 e se estendeu até sábado
(9), também em Cochabamba.
O
objetivo da cúpula parelela foi introduzir nas
discussões oficiais
temas e agendas de trabalho que normalmente não constam em acordos
internacionais. Entre eles, as migrações e a justica
social e de gênero.
Com fortísima participação de movimentos
indígenas, principalmente bolivianos,
cerca de 3 mil pessoas participam do evento. Foi justamente no
sentido de mostrar que as organizações da sociedade
sul-americana estão
alertas às propostas governamentais que a argentina Graciela Rodrigues,
da rede Alianza Social Continental (ASC) avisou: “estamos mobilizados
para cobrar e propor”, disse.
A
proposta de integração sul-americana retorna com força
após a eleição de
governos progressistas na América Latina. Mas não é
uma idéia nova, lembrou
o chileno Luis Maira. “Essa é a terceira oportunidade
histórica que
a região tem”, afirmou. “A primeira oportunidade se deu em
1826, quando
Símon Bolívar convocou a reunião no Panamá,
visando à integração política.
Depois, em 1959, tentamos criar o Mercado Comum Sul-americano, priorizando
a economía. Agora, com a CSN, temos os impulsos político
e econômico
para articular as 11 prioridades”.
Mas
se a disposição de vários governos, que dividem
certos ideais –, principalmente
a rejeição ao modelo neoliberal que vigorou na região durante
a década de 1990 –, essa também não é a
única condição necessária
para integrar a América do Sul.
“O
neoliberalismo que orientava os 34 governos da América Latina
e do Caribe
em 1994, quando foi lançada a Alca, deixou marcas na
arquitetura produtiva
de todos os países dessas regiões” alertou o
sociólogo Edgardo Lander,
da Univercidade Central da Venezuela.
“As
economias de todos os países estão orientadas a
exportar para os Estados
Unidos e a Europa e para competir entre si, o que impede uma integração
verdadeira”, explicou, adendando que a integração que
está sendo
proposta é, ao mesmo tempo, muito mais ambiciosa e difícil
por não
se
limitar ao aspecto comercial.
“Temos
de pensar a reorganização do modelo de desenvolvimento
de cada país
para atender prioritariamente aos mercados internos e repensar a forma
como nos relacionamos com o meio ambiente e como produzimos e consumimos
energia”, disse. “Precisamos nada menos do que um câmbio civilizacional”.

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