Pela Integração dos povos, outra América é possível:

Avaliação das Cumbres
Carlos Tautz

Cochabamba– Mesmo que haja um descompasso entre as expectativas despertadas pelas duas Cúpulas que aconteceram nesta semana em Cochabamba, Bolívia, tudo indica que haverá resultados concretos desses encontros. Mesmo que estes desagradem um dos lados e que contem com críticas internas aos seus próprios pares.
A Cúpula oficial, dos presidentes da Comunidade Sulamericana de Nações (CSN), sai da Bolívia, onde estiveram presentes oito presidentes, com uma agenda formal de trabalho. A prioridade é o campo da infraestrututa física de conexão entre os 12 países da região, área em que os governos estão mais interessados e mobilizados.

Uma secretaria temporária da CSN será instalada durante um ano no Rio de Janeiro, Brasil, para elaborar os estudos que levem à formalização da Comunidade. É o Plano Estratégico de Aprofundamento, como o chamou o presidente boliviano, Evo Morales.

Mas, o trabalho da secretaria não será tranqüilo. Segundo representantes de vários governos e de instituições financeiras presentes à Cochabamba, hidrelétricas, gasodutos e rodovias sairão do papel, de qualquer maneira, a despeito da franca oposição da maioria das organizações que organizaram a Cúpula Social pela Integração dos Povos, que também ocorreu em Cochabamba.

Há recursos e estamos prontos para ouvir movimentos sociais como esses aqui para superar eventuais desconfianças em relação a este ou àquele projeto”, disse Antonio Juan Sosa, vice-presidente de infraestrutura da Corporação Andina de Fomento (CAF), em debate na Cúpula Social.

As organizações que lideraram este evento avaliam que é errada a prioridade que os governos dão às obras, esperando que atrás delas venham o desenvolvimento social. “A Comunidade Sulamericana de Nações não deve ser uma prolongação do modelo de livre mercado baseado na exportação de produtos básicos e bens naturais,
fundamentada no endividamento e na desigual distribuição da riqueza”,

registra a Declaração final do encontro, que reuniu quase 4500 pessoas, a maioria indígenas de vários países da América do Sul.

Mas, carentes de recursos fiscais, os presidentes preferem ser pragmáticos e aproveitar a boa maré de oferta de crédito no mercado internacional.

A CAF, o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (Bndes), do Brasil, dispõem, juntos, que algo na casa de 30 bilhões de dólares em 2006 para emprestarem a projetos.

Essas instituições estão particularmente interessadas em colocar esses valores em obras que constem da IIRSA, a Iniciativa de Integração da Infraestrutura da Região da América do Sul, que é coordenada pelo BID.

Quase todos os governos expressaram na Cúpula da CSN seu apoio à IIRSA. Mas três deles variam da crítica aberta a um apoio condicionado. Hugo Chávez, da Venezuela, chamou a Iniciativa de “economicista”e, em discurso aos demais presidentes, leu um documento em que movimentos populares classificam a IIRSA de instrumentos das empresas multinacionais para exportar recursos naturais sulamericanos em direção aos países ricos. Chávez também reclamou da sucessão de reuniões presidenciais (“Vamos de cúpula em cúpula e o povo, de abismo em abismo”) e sugeriu que a CSN se institucionalize.

Precisamos do Banco do Sul, de um sistema de saúde e universidades e de outras instituições que ajudem nossos povos a sair da condição em que estão”, sugeriu. Propostas muito semelhantes a essa também foram feitas na Cúpula Social, porém com muito mais especificidade.

O presidente Luis Inácio Lula da Silva, do Brasil, o principal fiador da CSN e da IIRSA, sugeriu que um futuro parlamento da CSN fosse sediado em Cochabamba e cobrou dedicação de todos; “não temos o direito de falhar com o povo deste continente. Não levaremos 50 anos para nos integrarmos, como levou a Europa. O século 21, que não será perdido, como foi o século 20, será o século da América do Sul”.

Recém eleito presidente do Equador, Rafael Correa, veio à Cúpula na condição de convidado. Ele disse que, dos 31 projetos prioritários da IIRSA a maioria deve ser revisada, mas alguns, como a construção de rodovias e portos para exportação de bens brasileiros ao Pacífico no eixo Manaus (Brasil) – Manta (Equador) são bem vindas.

Em carta aberta aos movimentos populares da Cúpula paralela, o presidente Evo Morales, da Bolívia, também mostrou reticências em relação à IIRSA. Mas, seu vice-ministro da eletricidade, Jerjes Mercado, informou à IPS que seu país quer tomar parte do primeiro e, até aqui, mais polêmico prometo da IIRSA: as duas usinas a serem construídas no rio Madeira, no estado brasileiro de Rondônia, que os ambientalistas acusam de ameaçar inundar parte do território boliviano. No campo político, esta reunião também deixou claro que, para a CSN ir adiante, é necessário unificar duas atuais instâncias da integração regional: a Comunidade Andina (CAN) e o Mercosul. A este respeito, é possível que a eleição de Rafael Corrêa, no Equador, ajude a região a caminhar nessa direção. “Se ele confirmar a adesão ao Mercosul, rompe o eixo neoliberal andino, dos países que como Peru e Colômbia assinaram tratados de livre comércio com os EUA¨, analisou o sociólogo Edgardo lander, da Universidade Central da Venezuela e um dos principias formuladores teóricos da Aliança Social Continental, rede de organizações sociais que ajudou a organizar a Cúpula paralela. Lander saiu otimista de Cochabamba, apesar de reiteradas vezes alertar para que a CSN precisa tomar decisões concretas e sair dos “belos discursos diplomáticos”. A esse respeito, Lander pode ficar tranqüilo, Correa disse à IPS que na quarta-feira vai à Argentina discutir com o presidente Néstor Kirchner a promoção do Equador de membro associado a efetivo do Mercosul.

Mesmo com oposição, a IIRSA continua
Carlos Tautz

Mesmo com a oposição frontal de movimentos sociais que os apóiam, parece que os governos sulamericanos começarão a integração regional pela construção de grandes obras de infra-estrutura. Segundo indígenas, ambientalistas e membros de organizações não governamentais, várias das hidrelétricas, gasodutos e rodovias da Iniciativa de Integração da Infraestrutura da Região Sulamericana (IIRSA), o pacote de mais de 300 anteprojetos que é a base da Comunidade Sulamericana de Nações (CSN) causam impactos sociais e ambientais e não contribuem para integrar os povos da região.

Durante a Cúpula de Presidentes da CSN, que começa oficialmente hoje à noite e vai até amanhã na cidade boliviana de Cochabamba, representantes dos governos até aceitaram se reunir com as organizações sociais, na Cúpula Social pela Integração dos Povos. Mas, foram ao evento paralelo, que também se realiza em Cochabamba e igualmente termina neste sábado, para reafirmar: a IIRSA continuará.

Ontem, o secretário-geral (vice-ministro) do Ministério de Relações Exteriores do Brasil, já havia alertado os movimentos sociais da Cúpula paralela, com sempre manteve bom diálogo, que a integração física da América do Sul não vai parar.

“O progresso tecnológico e científico que vemos no mundo inteiro impulsiona todas as áreas, da economia à guerra. Precisamos nos constituir como bloco para fazer frente à essa realidade e a conexão física do continente é imprescindível”,afirmou.

“Trabalho com o tema IIRSA desde 2002 e tenho visto algumas mudanças de concepção, que aparecem à medida que vamos fazendo diálogos como esse, com os movimentos populares”, disse Ariel Pares, que no Ministério do Meio do Planejamento, do Brasil, coordena a participação brasileira na Iniciativa.

Ao lado de altos funcionários da Corporação Andina de Fomento (CAF) e do Ministério de Obras Públicas, Serviços e Vivendas da Bolívia, Pares foi enfático.

“A população e a economia da América do Sul estão fortemente concentrada nos do Atlântico e do Pacífico. Precisamos fazer eixos de rodovias bioceânicas, para juntar essas duas pontas e levar desenvolvimento ao vazio que existe no meio do continente”, disse.

Os “vazios” a que Pares se refere são o pantanal, as cordilheiras e a região amazônica. Esta última concentra cerca de 20 milhões de pessoas, somente em sua porção brasileira.

Um projeto, em especial, vai testar a disposição dos governos sulamericanos, vários deles que até há poucos anos estavam na oposição, de levar adiante projetos com alto impacto social e ambiental.

As duas megahidrelétricas projetadas para o rio Madeira, no estado brasileiro de Rondônia, perto da fronteira com o Peru e a Bolívia, integram a IIRSA e são acusadas pelo Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB), do Brasil, e pelo Foro Boliviano Meio Ambiente e Desenvolvimento (Fobomade), de causarem impactos ambientais dos dois lados da fronteira, embora o Ibama, a agencia ambiental brasileira, diga o contrário.

“Os próprios estudos realizados até o momento pelo consorcio brasileiro que deseja construir as usinas mostram que, desde 1990, tem aumentado em 2% o nível de sedimentos no leito do rio”, observa o especialista em saúde pública boliviano Pablo Villegas, membro do Fobomade.

“Em 50 anos, eles mesmos estimam que o fundo do rio terá se elevado em até 20 metros, alargando o o lago a ser formado pelas hidrelétricas Santo Antônio e Jirau”, lembra.

“No lado boliviano, essa expansão do lago poderia atingir a região de Riberalta e Guaiarámerim, onde vivem mais de 100 mil pessoas que perderiam seu modo de sustento”, completou.

Essa possibilidade, se preocupa, não afasta o interesse do governo boliviano de tomar parte do projeto. “Não nos opomos ao projeto e até queremos fazer parte dele, se o complexo do rio Madeira não atingir a soberania boliviana e o povo daquela região”, disse o vice-ministro de eletricidade da Bolívia, Jerjes Mercado.

Ele também informou que no dia 15 de dezembro, o Ministro das Relações Exteriores boliviano, David Choquehuanca, irá à Brasília debater o projeto com técnicos brasileiros.

“O problema com o complexo do Madeira, que pode ainda incluir duas outras usinas e uma hidrovia, é que ele foi concebido em 2000, por um antigo governo brasileiro, quando a conjuntura da América Latina toda era outra”, analisa o sociólogo brasileiro Luis Novoa, professor da Universidade de Rondônia. “Precisamos parar o cronograma e rever o projeto”, receita.

Vai ser uma tarefa difícil, porque, a favor dos megaprojetos, está o presidente do Brasil Luis Inácio Lula da Silva, que recentemente expressou dessa maneira a sua disposição de comprar briga até com antigos aliados, para construir as hidrelétricas no Madeira, “Indígenas, quilombolas (descendentes de escravos), ambientalistas e o Ministério Público precisam deixar de ser entraves ao desenvolvimento”.

Mesmo projetos que estão fora da IIRSA, mas são encarados como instrumentos de integração regional,atraem a atenção dos governos, que estão dispostos a colocar neles enormes somas e a comprar grandes brigas. “Ontem (quinta-feira), o presidente Hugo Chávez esteve em Brasília discutindo com o presidente Lula os outros projetos comuns que nossos dois países têm na área de energia”, informou. Um deles é chamado Gasoduto do Sul, que sairia da Venezuela, passaria por todo o nordeste brasileiro e chegaria até o Uruguai e a Argentina, numa extensão de quase 10 mil km e ao custo de 23 bilhões de dólares. Ambientalistas e indígenas venezuelanos acham o projeto de megalômano e de afetar o meio ambiente, uma vez que ele passa por milhares de quilômetros de floresta amazônica.


Integração possivel, mas ambiciosa
Carlos Tautz

A segunda Cúpula de Presidentes da Comunidade Sul-Americana de Nações (CSN), que começa nesta sexta-feira (8 de dezembro) em Cochabamba, Bolívia, terá, pelo menos, quatro grandes desafios pela frente: construir a conexão física entre os 12 países da região; integrar energeticamente a América do Sul, para que a região em conjunto possa se desenvolver, superar as desigualdades e a pobreza, e incentivar as várias identidades culturais dos seus povos.

A declaração final do evento, que já está praticamente concluída, está organizada em torno desses quatro pontos. O texto foi finalizado em uma reunião de vice-ministros de Relações Exteriores durante a manhã de hoje, que também elaboraram um plano de ação para alcançar essas metas.

“Assim, seremos capazes de constituir o quarto grande bloco do planeta, ao lado do Nafta, da Uniao Européia e da Ansean, a associação de países da Ásia e do Pacífico”, resumiu o diplomata chileno Luis Maira, que ajudou a redigir a declaração.

Não será uma tarefa fácil alcançar essas metas – e não apenas pelo fato de serem ambiciosas. Mas, também, porque ainda não está claro se os governos da região assumirão a idéia da CSN, apesar de todos(as) se mostrarem dispostos em aderir à idéia de integração regional.

O presidente argentino, Nestor Kirchner, por exemplo, só confirmará amanhã à tarde, poucas horas antes da abertura oficial da cúpula, se participam do evento. Por enquanto, sequer informou se o seu chanceler estará em Cochabamba.

A incerteza sobre a presenca do mandatário argentino se deve a uma desconfiança tradicional que um evento como esse desperta. A comunidade foi proposta pelo Brasil em 2004 e considerada por Brasília como a prioridade da sua política externa. Argentina e Brasil vivem relações de amor e ódio que vão muito além do futebol. Isso não impede que os dois países tenham dado passos importantes no sentido da integração econômico-financeira do continente. “Em janeiro de 2007, Argentina e Brasil comprarão produtos um do outro utilizando apenas o peso e o real, sem a intermediação do dólar”, informou Augustin Colombo, chefe de gabinete da chancelaria argentina.

A estratégia antecipa e facilita a proposta de criação de um banco desenvolvimento mantido por países da América do Sul, utilizando como lastro apenas moedas locais. A proposta também vai na mesma direção do chamado Banco do Sul, cujos contornos vêm sendo delineados por vários bancos centrais da região mas, em especial, pelos da Argentina e da Venezuela, cujo presidente, Hugo Chávez, confirmou que chega à cidade boliviana nesta sexta-feira. Augustin também adiantou que os vice-ministros definiram, sem fixar datas, que, pela ordem, a Colômbia e Chile sediarão as próximas cupulas da CSN.

À tarde, em evento na Cupula Social pela Integração dos Povos, o secretário-geral (vice-ministro) do Ministério das Relações Exteriores do Brasil, Samuel Pinheiro-Guimarães, avaliou que a CSN será implantada de acordo com “as pressões que os governos da região receberem de organizações da sociedade”.

A cúpula social, organizada por movimentos sociais e organizações não-governamentais da América Latina, começou no dia 6 e se estende até sábado (9), também em Cochabamba. O objetivo da cúpula parelela é tentar introduzir nas discussões oficiais temas e agendas de trabalho que normalmente não constam em acordos internacionais. Entre eles, as migrações e a justica social e de gênero.

Com fortísima participação de movimentos indígenas, principalmente bolivianos, cerca de 3 mil pessoas participam do evento. Foi justamente no sentido de mostrar que as organizações da sociedade sul-americana estão alertas às propostas governamentais que a argentina Graciela Rodrigues, da rede Alianza Social Continental (ASC) avisou: “estamos mobilizados para cobrar e propor”, disse.

A proposta de integração sul-americana retorna com força após a eleição de governos progressistas na América Latina. Mas não é uma idéia nova, lembrou o chileno Luis Maira. “Essa é a terceira oportunidade histórica que a região tem”, afirmou. “A primeira oportunidade se deu em 1826, quando Símon Bolívar convocou a reunião no Panamá, visando à integração política. Depois, em 1959, tentamos criar o Mercado Comum Sul-americano, priorizando a economía. Agora, com a CSN, temos os impulsos político e econômico para articular as 11 prioridades”.

Mas se a disposição de vários governos, que dividem certos ideais –, principalmente a rejeição ao modelo neoliberal que vigorou na região durante a década de 1990 –, essa também não é a única condição necessária para integrar a América do Sul.

“O neoliberalismo que orientava os 34 governos da América Latina e do Caribe em 1994, quando foi lançada a Alca, deixou marcas na arquitetura produtiva de todos os países dessas regiões” alertou o sociólogo Edgardo Lander, da Univercidade Central da Venezuela. “As economias de todos os países estão orientadas a exportar para os Estados Unidos e a Europa e para competir entre si, o que impede uma integração verdadeira”, explicou, adendando que a integração que está sendo proposta é, ao mesmo tempo, muito mais ambiciosa e difícil por não se limitar ao aspecto comercial.

“Temos de pensar a reorganização do modelo de desenvolvimento de cada país para atender prioritariamente aos mercados internos e repensar a forma como nos relacionamos com o meio ambiente e como produzimos e consumimos energia”, disse. “Precisamos nada menos do que um câmbio civilizacional”.


Modelo de integração física segue polêmico na América do Sul

Mudanças estruturais no planejamento de integração física da América do Sul, previsto na Iniciativa de Integração da Infra-estrutura Regional Sul-americana (Iirsa), não devem ocorrer. Movimentos questionam modelo de desenvolvimento que prioriza exploração e escoamento de recursos naturais primários.

Sebastián Valdomir - Especial para a Carta Maior*

COCHABAMBA – Entre os temas que tangenciaram o encontro da sociedade civil – Cúpula Social pela Integração dos Povos – e o processo oficial da Comunidade Sul-americana de Nações (Casa) em Cochabamba, Bolívia, na última semana, o mais importante foi o debate sobre a infra-estrutura física de integração regional do projeto Iirsa (Iniciativa de Integração da Infra-estrutura Regional Sul-americana).

A mesa de diálogo entre os movimentos e os representantes governamentais sobre a Iirsa, realizada na última sexta (8), trouxe os maiores questionamentos aos posicionamentos dos governos, tanto no que diz respeito aos objetivos sobre a aplicação da Iirsa quanto na falta de transparência e participação frente à sociedade civil.

As principais críticas à Iirsa, enumeradas num documento entregue aos negociadores governamentais, acusam o projeto de justificar um modelo econômico de exportação dos bens naturais dos povos sul-americanos, o que se opõe frontalmente às demandas de sustentabilidade do desenvolvimento demandado pelas comunidades e povos do continente, sendo “totalmente incompatível com a construção de uma integração que busca a construção da cidadania sul-americana”

Poucos avanços
Como a própria concepção de integração tem causado tensões entre os vários membros da Comunidade Sul-americana de Nações, era previsível que não houvesse avanços extraordinários na II Cúpula de Presidentes. No tema Iirsa, e mais concretamente sobre a possibilidade de reformular o projeto e revisar seus objetivos e modos de implantação, permaneceu a dualidade que acabou marcando a maior parte das decisões políticas do evento.

Na declaração final da Cúpula presidencial assinada pelos 12 Estados que são membros da Casa, se estabeleceu uma fórmula bastante conhecida, de promover a integração “em harmonia com a natureza para um desenvolvimento sustentável, garantindo que as preocupações de caráter ambiental estejam presentes em todas as iniciativas de desenvolvimento regional, fundamentalmente nas obras de infra-estrutura e energia, preservando o equilíbrio do ecossistema e a proteção da biodiversidade, com reconhecimento e valorização dos conhecimentos tradicionais”.

De acordo com o negociador boliviano para a Casa, Pablo Sólon, a questão da Iirsa acabou tendo mais importância entre os países-membro do que o tema energético. No documento oficial específico sobre a iniciativa, ficou acordado que se deve “aprofundar e aperfeiçoar os avanços na identificação, avaliação e execução de projetos de integração no marco do processo de planejamento em escala regional dos países da América do Sul”.

O documento afirma ainda que a Iirsa deve continuar promovendo o objetivo da integração da infra-estrutura atendendo às necessidades de desenvolvimento social e econômico sustentável das nações para acelerar o processo de integração”. Ou, traduzindo, que se continue no rumo adotado, sem mudanças, para acelerar o crescimento econômico da região.

Os que esperavam mudanças concretas nos rumos da Iirsa ficaram desiludidos. Por outro lado, para os que tinham expectativas moderadas, o resultado final não é tão ruim, já que ficou claro, uma vez mais, que os processos políticos são mais importantes do que os acordos pontuais das Cúpulas presidenciais.

Neste sentido, existe tanto a possibilidade de que a Iirsa se modifique lentamente, como que seja implantada através de suas obras, sem nenhuma mudança substancial, mas com declarações de preocupação com o meio ambiente e as comunidades afetadas. Como o tema da Iirsa está ligada a um modelo específico de desenvolvimento, a pergunta que fica é se ao países-membros estão convencidos de que é preciso mudar o modelo, pergunta bem mais complexa.

Histórico
Criada em 2000, a Iirsa é um processo multissetorial que pretende desenvolver e integrar as áreas de transporte, energia e telecomunicações da América do Sul, em dez anos. A base do planejamento são 10 eixos de integração da América do Sul, que abrangem faixas geográficas de vários países que concentram ou possuem potencial para desenvolver bons fluxos comerciais, visando a formar cadeias produtivas e, assim, estimular o desenvolvimento regional.

De acordo com a Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais, as críticas à Iirsa estão centradas em seu caráter ou objetivo de fortalecimento das instituições e dos mecanismos de mercado, estando, desta forma, em sintonia com as principais diretrizes de instituições como o BID, o Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional, confrontando-se com as políticas públicas baseadas na universalização de direitos.

Ainda segundo a Rede Brasil, a Iirsa foi elaborada e está sendo executada enquanto a materialização da terceira etapa das reformas estruturais de caráter neoliberal. A estratégia de desenvolvimento baseada na implementação de "cinturões de desenvolvimento" a partir dos "eixos de integração" tende a perpetuar a fragmentação espacial do desenvolvimento, através da concentração dos investimentos públicos e privados naquelas partes dos territórios nacionais que efetivamente interessem ao grande capital, por disporem de melhores condições para conectar-se ao fluxo internacional de mercadorias. Em conseqüência disso, a Iirsa tenderia a agravar as disparidades no interior de cada região e entre as diferentes regiões de cada país, conclui a organização.

*Com informações da Rede Brasil


Manifesto de Cochabamba

Saudamos este importante momento histórico que se abre com a Cúpula de Cochabamba, que tem o desafio de aprofundar um processo de integração regional que expresse os interesses populares.

Os povos da América sofremos a aplicação de um modelo econômico que, baseado no fundamentalismo de mercado, na privatização e na liberalização comercial, teve como conseqüências o aumento da desigualdade, a deterioração das condições trabalhistas, o desemprego, a generalização da informalidade, a depredação do meio ambiente, o aprofundamento da discriminação contra as mulheres, a pobreza, a marginalização das comunidades originárias e camponesas e a perda da capacidade do estado de promover políticas de desenvolvimento social e econômico.

Na busca de generalizar e aprofundar estas políticas se tentou criar a ALCA e os Tratados de Livre Comércio, por meio dos quais se abandonava qualquer perspectiva de desenvolvimento autônomo, baseado no mercado interno e no respeito de todos os direitos humanos, sociais, econômicos, culturais e ambientais.

Os povos do continente fomos protagonistas de uma luta contra este modelo, contribuindo decisivamente para deter a ALCA e os acordos entre países que privilegiam o comercial e os interesses das multinacionais.

A crescente organização do movimento popular na América do Sul, incluindo as comunidades originárias, os camponeses, os habitantes marginalizados das cidades, as mulheres, os jovens, os estudantes, os trabalhadores e o conjunto de organizações sociais determinou um novo momento político e social, avançando na conformação de novos governos sensíveis às demandas populares, que se distanciam da agenda do governo dos Estados Unidos e das corporações e que buscam um caminho próprio. Este momento político que vive a América do Sul oferece uma oportunidade histórica que não pode ser desperdiçada para avançar em direção a uma verdadeira integração soberana e para os povos.

A Comunidade Sul-americana de Nações não deve ser um prolongamento do modelo de livre mercado baseado na exportação de produtos básicos e bens naturais, nem fundamentada no endividamento e na desigual distribuição da riqueza.

A criação de uma autêntica Comunidade Sul-americana de Nações não pode ser um processo que exclua as exigências populares e para isto requer uma autêntica participação social. Consideramos que é necessário outro tipo de integração no qual prevaleça a cooperação sobre a concorrência, os direitos dos habitantes sobre os interesses comerciais, a soberania alimentar sobre a agro-exportação, a ação decidida do Estado na busca do bem-estar sobre as privatizações e o sentido de eqüidade sobre o afã de lucro, o respeito pelo meio ambiente sobre o saqueio impiedoso dos recursos naturais e a eqüidade de gênero sobre a injusta divisão sexual do trabalho. Também deve primar pelo reconhecimento, respeito e promoção do aporte das comunidades originárias sobre a marginalização, exploração e folclorização de seus valores e tradições econômicas e culturais. Deve ser promotora da paz, fiadora dos direitos humanos dos povos e, em oposição às pretensões imperiais, contrária à intromissão de tropas, à instalação de bases militares estrangeiras e à participação de forças de ocupação em terceiros países.

Somente na medida em que se mude o tipo de desenvolvimento e se defenda a soberania das nações o esforço de construção da Comunidade Sul-americana de Nações será frutífero.


Os povos de todo o continente continuaremos promovendo uma integração desde e para os povos, participando com nossas próprias reivindicações e propostas.

Estamos dispostos a promover o diálogo que conduza a resultados reais e nos comprometemos a manter as lutas de resistência que assegurem o protagonismo do movimento popular no processo de integração para promover uma verdadeira democracia e bem-estar para nossos povos.

Pela Integração dos povos, outra a América é possível.

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