Haiti - Acadêmicos criticam a ocupação - Correio Braziliense - 08/03/2007:
Correio Braziliense - 08/03/2007

Mariana Mainenti
Da equipe do Correio

Os professores da Universidade do Haiti e líderes do movimento de trabalhadores Batay Ouvriye, Didier Dominique e Rachel Beauvoir Dominique, vieram ontem a Brasília pedir ao governo brasileiro que retire suas tropas do país caribenho. “Defendemos a retirada das tropas porque estão defendendo um projeto cruel de exploração do povo haitiano. A manutenção da paz que fazem é uma manutenção da paz dos mais ricos”, acusou Didier.

Na opinião do arquiteto haitiano, as operações das forças da Missão das Nações Unidas de Estabilização no Haiti (Minustah) estão levando “terror” às áreas mais pobres. “Começou em dezembro uma ofensiva militar em Cité Soleil que causou a morte de civis. Também não há desarmamento. O que acontece é um terror nos bairros populares”, afirmou, em referência às operações lideradas pelo Batalhão Brasileiro na favela de Porto Príncipe, para que a Minustah passasse a ter o controle territorial de Cité Soléil.

O bairro estava dividido entre facções rivais que promoveram uma escalada de seqüestros no país. “Esses seqüestros atingem somente a população mais rica. Para os pobres, as operações acabaram levando apenas mais insegurança”, disse Rachel. “Pedimos que as tropas se retirem, para que o próprio povo haitiano possa se organizar e criar alternativas”, acrescentou a antropóloga.

Documento
Os dois entregaram ontem a autoridades brasileiras o Relatório Final da Missão Internacional de Investigação e Solidariedade com o Haiti, documento elaborado por representantes de movimentos sociais latino-americanos. O documento aponta que a Minustah não terá êxito sem que questões estruturais do Haiti sejam solucionadas. “Há uma situação de miséria do povo haitiano. Os que têm trabalho funcionam como mão-de-obra barata nas multinacionais. Os salários são de miséria. É isso que causa a situação de tensão do povo haitiano”, afirmou Didier, acrescentando que a questão da dívida haitiana também tem de ser solucionada, Ele criticou ainda o governo haitiano por ter firmado um acordo de livre comércio com o governo dos EUA. “Esse acordo não dá nenhuma garantia dos direitos dos trabalhadores haitianos”, disse.