Em
agosto e setembro, enquanto o Brasil se entretinha com a campanha
presidencial e dossiês até hoje não esclarecidos,
acontecia uma vasta ação coordenada entre os dois
candidatos a presidente, órgãos ambientais, agências
de fomento, empresas estatais e uma das maiores companhias privadas
do País. O objetivo: viabilizar política e
financeiramente a construção das polêmicas
megahidrelétricas Jirau e Santo Antônio, no rio Madeira
(RO), na fronteira com a Bolívia. As usinas recebem sérias
ressalvas de especialistas da área de energia e, obviamente,
de ambientalistas.
O
projeto tem orçamento de Brasil Grande: R$ 20 bilhões –
ou mais de cinco vezes o valor de outra obra que atrai ampla
oposição, a transposição do rio São
Francisco –, fora a construção dos milhares de
quilômetros de linhas de transmissão, que nenhum
apoiador do projeto se arrisca a dizer em quanto ficará, nem
quem será o responsável pela sua construção.
A
Operação Madeira de certa forma aproximou Lula e
Alckmin. Enquanto ambos se digladiavam nos debates da tevê, nos
bastidores suas equipes concordavam em incluir nos programas de
governo de ambos a construção de usinas controversas na
Amazônia. O petista e o tucano ainda concordam com a construção
de outra megahidrelétrica polêmica e também a
incluíram em seus planos de governo: é Belo Monte, no
Pará, onde a Camargo Corrêa há décadas é
a preferida da estatal Eletronorte, “dona” do projeto.
A
ação coordenada envolveu ainda o Ibama, que acelerou
mas não garantiu visibilidade pública ao processo de
licenciamento ambiental das obras; o Bndes, que diminuiu o custo do
financiamento a projetos de geração e transmissão
de energia e que há muito brada a sua vontade de ganhar
dinheiro com a obra; e a dupla Furnas&Odebrecht, que mesmo sem
terem vencido qualquer licitação para construir as
hidrelétricas apresentam-se como as responsáveis pelo
projeto. Por ora, ambas tentam cooptar apoios às controversas
superusinas.
Não
se conhece o emprego de quaisquer expedientes delubinos nem
marcosvalerianos na Operação Madeira. Mas, chama a
atenção nela o sincronismo entre as ações
tanto de entidades públicas quanto de empresas privadas,
passando por candidatos a Presidência da República com
orientação política diferentes. Também é
de estranhar a disposição de o governo tocar o processo
de obra tão polêmica quanto cara, desprezando a
precaução que precisa orientar políticas
públicas dessa escala, no preço e nos impactos
potenciais.
Os
defensores de Jirau e Santo Antônjo esperam que a
disponibilidade de energia naquela região induza ao
aparecimento de um pólo agroindustrial que consumiria a maior
parte da eletricidade. Para ser consumida, tanta energia demandaria a
utilização em 30 milhões de hectares (para
plantar soja, criar gado etc). A área é maior do que o
próprio Estado de Rondônia e equivale a uma vez e meia o
território do Uruguai.
A
utilização de tanto espaço exigiria a derrubada
de florestas em Rondônia e no Mato grosso, em regiões
que o Ministério do Meio Ambiente (MMA) considera prioritárias
para a conservação, utilização
sustentável e repartição dos benefícios
da biodiversidade brasileira.
Ou
seja: a construção de tamanha infra-estrutura induz o
mesmo tipo de desenvolvimento que até hoje pouco beneficiou a
população pobre de Rondônia e que gerou ampla
destruição ambiental no estado. Suspeita-se que, por
trás da construção das usinas de agora esteja a
intenção de criar um grande lago artificial por onde as
commodities agrícolas seriam exportadas e inserindo essa
hidrovia e as hidrelétricas na estratégia do governo
brasileiro de liderar a integração da América do
Sul.
Aliás,
a Casa Civil brasileira já apontou a criação da
hidrovia como um ganho a mais do projeto e, posteriormente, retirou a
proposta de construção de eclusas (que aumentariam o
custo do projeto em cerca de R$ 1 bilhão), numa manobra para
amenizar as críticas à obra.
Nem
mesmo esse recuo foi suficiente para que os opositores do projeto
deixem de alegar o que consideram a ser a verdadeira, e não
assumida, intenção do complexo do Madeira: a construção
de pelo menos mais duas usinas em território boliviano. O
anúncio dessas hidrelétricas seria deixado para o
futuro, como tática para vencer resistências inerciais
no presente.
De
toda forma, já está clara a opção pela
volta dos megaprojetos de infra-estrutura na Amazônia como
modelo de ocupação do território. Ela ratifica
um crescimento econômico que até hoje só
concentrou brutalmente a renda e favoreceu a emergência,
naquela região, de uma Estado pouco republicano e que volta e
meia ganha as manchetes nacionais por sua vinculação
com o crime organizado.
Santo
Antônio e Jirau não ajudariam a mudar esse quadro e até
o radicalizariam, apesar de a Operação Madeira insistir
na idéia de que construir as hidrelétricas é uma
questão de “soberania nacional” . Na verdade, o caminho
escolhido vai no sentido oposto. A construção das
hidrelétricas pode acabar gerando mais uma disputa energética
com a Bolívia, após os problemas derivados da decisão
de La Paz nacionalizar os hidrocarbonetos, em 1 de maio de 2006.
A
bacia hidrográfica do rio Madeira envolve Brasil, Bolívia
e Peru e a construção de qualquer obra que impacte o
território dos países vizinhos exigiria um acordo
internacional, que não está sequer em cogitação
por parte do Brasil. Pior: a organização não
governamental boliviana Fobomade tem exigido esclarecimento sobre os
possíveis impactos no território daquele país,
baseada nos estudos do hidrogeólogo Jorge Molina. O
pesquisador alerta para a possibilidade de inundação
futura de amplas extensões de terra, com a formação
do lago de Jirau.
Um
roteiro em quatro ações
Na
prática, a Operação acontece desta forma:
1)
O Ibama, após meses de questionamentos, aprovou licenças
preliminares para as obras e marcou as audiências públicas
para discutir um pré-Estudo de Impacto Ambiental (EIA). O
Ministério Público (MP) de Rondônia conseguiu uma
limitar para interromper as audiências (marcadas para 7 e 11 de
novembro), mas a Justiça federal já retirou a
suspensão. Como observa o sociólogo Luis Novoa, da
Unir, o “EIA das usinas é uma colagem descoordenada de
justificativas de metas pré-estabelecidas e isso fica evidente
na aceitação [pelo Ibama] de estudos complementares que
nada complementam”. Especialista em política e legislação
dos recursos hídricos, Novoa recorda que “o complexo do
Madeira, ao transformar tão radicalmente a morfologia da Bacia
do rio, não poderia prescindir dos estudos de bacia. O
empreendimento modificaria completamente o perfil da Bacia antes
mesmo desta ser assim enquadrada, estudada e regulamentada”.
2)
Enquanto isso, o Presidente reeleito põe em prática seu
programa de governo. Nele, lê-se no capítulo “Brasil
potência energética” a promessa de “priorizar o
aproveitamento do potencial hidráulico da Amazônia,
sobretudo das hidrelétricas do Madeira e de Belo Monte”, e
Lula pede à Ministra do Meio Ambiente que não seja tão
severa na concessão das licenças ambientais.
3) O Bndes, único financiador de longo prazo no Brasil para obras de infraestrutura, reduziu suas taxas para projetos de geração e transmissão de energia, com um detalhe, que só os conhecedores do setor elétrico observaram: o incentivo deixou de fora a área da distribuição, sintomaticamente aquela que não está diretamente relacionada a Jirau e Santo Antônio.
4)
Furnas&Odebrecht, que há anos mantêm um casamento
nas melhores obras da estatal, seguem contratando papers de
especialistas brasileiros, tentando angariar boa vontade para com a
obra. Este clima seria útil caso o MP questione o projeto. Em
encontros privados com professores universitários e
organizações não governamentais, as empresas
sustentam que as usinas causarão menos impacto do que outros
grandes projetos de infra-estrutura já instalados na região.
Contudo, não explicam como evitariam que se repetisse a
tragédia social e ambiental provocada pela usina de Tucuruí
(no Pará), outra obra faraônica que até hoje
engorda o caixa dos complexos minero-siderúrgico, que consomem
energia intensivamente, mas que não conseguiu fazer o povo
paranense se beneficiar da riqueza produzida pelo seu estado.
Os
argumentos de quem é contra
Professores
universitários levantam dúvidas sobre se haverá
mercado no Brasil para consumir os quase 6,5 mil MW que Jirau e Santo
Antônio produziriam. Afinal, todos os anos as projeções
(pífias) de crescimento do PIB volta e meia são
reajustadas para (muito) baixo (as previsões mais otimistas
são de 3,5% em 2006), o que diminui a necessidade de energia
para movimentar a economia. Além disso, o quase apagão
de 2001 teria obrigado grandes consumidores de eletricidade a
otimizarem e diminuírem a sua necessidade de energia.
Esses
especialistas, entre eles os professores Arthur Moret, da
Universidade de Rondônia (Unir),Oswaldo Sevá, da
Unicamp, e Célio Berman, da USP, lembram que já passou
da hora de o País ser mais crítico quanto aos
incentivos que garante à energia consumida por corporações
dos setores siderúrgico e outros consumidores intensivos de
energia. Grandes exportadores dos seus produtos finais, eles se
transformam em exportadores líquidos de energia, o que é
muito bom para suas contas correntes, mas é péssimo
para a sociedade brasileira.
Rever
a política de subsídios aos grandes grupos e liberar
esse volume de eletricidade consumida garantiria a energia de que o
Brasil necessitaria, caso voltasse a crescer como a Argentina e a
Venezuela (quase 9% neste ano), ou, pelo menos, na média da
América Latina (cerca de 4,5%).
Se
para presidente Lula desenvolvimento significa a construção
de grandes obras, exatamente como na década de 1970, um
fantasma típico daquele tempo pode voltar a nos assustar:
projetos que beneficiam pouco a sociedade e são um fim em si
mesmo.
Lula
já avisou: quer ser comparado não aos governos
anteriores, mas gostaria que os números do seu segundo mandato
fossem cotejados com os do primeiro. E aí, vem a questão:
para alcançar indicadores positivos, que tipo de
desenvolvimento o presidente estaria disposto a induzir?
Carlos Tautz jornalista e pesquisador do Ibase - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas

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