Fabrina
Furtado
Brasília,
março de 2007
A dívida não é
só um problema financeiro, é acima de tudo um problema
geopolítico. Além de ser marcado pela
irresponsabilidade socioambiental e fiscal, o endividamento tem sido
fator de estagnação econômica dos países
do Sul e “instrumento de controle" e de barganha por parte dos
países do Norte. Como arma de submissão, a dívida
tem sido usada para garantir melhores condições
econômicas para multinacionais, a implementação
de políticas internas e externas, a militarização,
acordos comerciais e a extração de recursos naturais
dos países do Sul que beneficiam os países do Norte.
Desta forma, as dívidas do Sul são também
responsabilidades dos países do Norte. Estes vêm
historicamente promovendo um modelo de financiamento ao
desenvolvimento arbitrário, irresponsável e de
exploração para servir seus próprios interesses.
Isso se dá através das condicionalidades aos
empréstimos e das iniciativas de “alívio” da
dívida.
Nesse contexto, qualquer
iniciativa de anulação de dívida deve romper com
a dependência econômica e política dos países
do Sul aos países do Norte, promovendo a autodeterminação
dos povos e o reconhecimento da responsabilidade dos países do
Norte, suas corporações multinacionais e Instituições
Financeiras Multilaterais como o Fundo Monetário Internacional
(FMI), o Banco Mundial e o Banco Interamericano de Desenvolvimento
(BID) na criação e manutenção do modelo
de endividamento. Deve também reconhecer a ilegitimidade
dessas dívidas, muitas das quais foram contratadas por
governos militares ou corruptos, fora de qualquer marco legal sem
consultar a sociedade para quem os empréstimos deveriam servir
e não foram utilizados em benefício dos povos.
Iniciativas de anulação da divida devem promover acima
de tudo, a soberania dos países do Sul. Mas isso não
vem ocorrendo.
Iniciativa
HIPC (Países Pobres Altamente Endividados, na sigla em inglês)
e Iniciativa Multilateral de Alívio à Dívida
(MDRI,
na sigla em inglês)
Em 1996, o Banco Mundial criou uma
iniciativa para os países pobres altamente endividados. Na
época, esse programa prometia eliminar US0 bilhões
da dívida de 38 países. Trinta e dois deles estão
na África, a maioria em situação desesperadora,
devastados por guerras civis e pela aids. Em 1999 houve um incremento
à iniciativa HIPC que passou a contar com 47 países.
Para ser contemplado por essa iniciativa o país tem que atingir os chamados “ponto de decisão” e “ponto de conclusão”. A primeira etapa da Iniciativa, um período de três anos de “bom desempenho” nas políticas econômicas e sociais - determinado pelo Banco Mundial e FMI - leva o país ao "ponto de decisão". Uma Análise do Nível de Endividamento Sustentável – também calculado pelo Banco Mundial e FMI - determina se o país está em um nível de endividamento sustentável para chegar ao "ponto de conclusão". Os países que não conseguem atingir um nível de endividamento sustentável no ponto de conclusão, recebem “ajuda” com a condição que procedam a implementar a receita de reformas durante um segundo período de três anos. No ponto de conclusão, os chamados credores concederão o “alívio” da dívida prometido no ponto de decisão. A implementação de reformas continuam até o país alcançar um nível de endividamento sustentável determinado pelo Banco Mundial e FMI.
Isso quer dizer que, em troca dos
“descontos”, os países têm que - seguindo a
determinação de instituições unilaterais,
ilegítimas, falidas e corruptas - implementar ajustes fiscais
e estruturais para aumentar a carga tributária e reduzir
gastos públicos, liberalizar seu comércio, finanças
e privatizar os serviços públicos. Conseqüentemente,
a situação de endividamento financeiro, social e
ecológico continua insustentável. As dívidas
continuam, em sua maioria, impagáveis. Os países que
fazem parte do programa pagam mais em serviços da dívida
do que recebem em “ajuda”.
De acordo com o Banco Mundial, 29
países atingiram o “ponto de decisão” e 19 o “ponto
de conclusão”. Dos países que fazem parte da
Iniciativa na América Latina e Caribe atingiram o ponto de
conclusão Bolívia, Guiana, Honduras e Nicarágua.
Em
2005, o G-8, grupo dos países mais ricos do mundo mais a
Rússia, anunciou que o Banco Mundial, o Fundo Monetário
Internacional (FMI) e o Banco de Desenvolvimento Africano – através
da Iniciativa Multilateral de Alívio à Dívida
(IMAD) - não mais cobrariam a dívida de pelo menos 19
países listadas no Grupo de Países Altamente
Endividados que “atingiram o ponto de conclusão”, além
de Camboja e Tajiquistão.
O Banco Interamericano de Desenvolvimento
Durante
a 47ª
Assembléia Anual do Banco
Interamericano de Desenvolvimento (BID), ocorrida em abril de 2006 na
cidade de Belo Horizonte, Brasil, os países membros do Banco
iniciaram um processo de discussão em torno da anulação
da dívida externa da Bolívia, Guiana, Honduras,
Nicarágua e Haiti reivindicada pelo Banco. Se o BID não
estivesse reproduzindo o mesmo modelo de “alívio” da
dívida do Banco Mundial e FMI, essa iniciativa seria de suma
importância já que 45% das dívidas dos países
HIPC da América Latina e Caribe incluindo o Haiti estão
sendo cobradas pelo BID.
Na
sua última reunião para discutir o assunto, o Banco
decidiu que a
data de corte da dívida cobrada é 31 de dezembro de
2004. O montante total para os cinco países é de US$
4.387 milhões, dos quais US.370 milhões são de
principal e US.017 milhões, de juros. Esse valor representa
em torno de 84% da dívida dos cinco países. A proposta
será implementada retroativamente até 1 de janeiro de
2007. A Assembléia de Governadores estabeleceu a elegibilidade
do Haiti ao “alívio” interino da sua dívida. No
entanto, de acordo com o Banco como o Haiti ainda não chegou
ao "ponto de decisão" sob a Iniciativa HIPC, só
estará elegível para o montante completo de “alívio”
da dívida quando cumprir a receita de reformas. A proposta
ainda mudará os critérios para as operações
em termos concessionais (custos menores e prazos maiores) do Banco1.
A Diretoria Executiva e a Assembléia de Governadores se
concentrarão nas próximas semanas e na sua próxima
Assembléia a ser realizada nos dias 16-20 de março na
Guatemala, na definição de critérios novos para
os cinco países e outros.
Anular
para quê e para quem e a que custo?
Essas
iniciativas foram celebradas pelos países do Norte que
classificaram os momentos como “históricos”. No entanto,
pouco ou nada mudou. No caso da MDRI
de 2005, a redução da dívida de alguns
países foi pequena, como é o caso dos países da
América Latina e Caribe. Nicarágua, Honduras e Bolívia,
por exemplo, tiveram apenas 23%, 28% e 31%, respectivamente das suas
dívidas anuladas. No caso do BID não é a dívida
total dos países que está sendo considerada.
Como
explicado acima, as propostas de anulação de dívida
das IFMs vêm acompanhadas pela imposição de uma
série de “condicionalidades”. No caso do BID isto está
explicito no que diz respeito ao Haiti. Desta forma, os países
que deveriam se beneficiar de uma anulação total e
incondicional das dívidas sendo cobradas só podem
entrar no programa ou receber novos empréstimos se seguirem a
cartilha pré-estabelecida das IFMs; as bem conhecidas
políticas neoliberais de abertura financeira, comercial,
privatizações e a mercantilização da
vida. Além de impor metas fiscais ao país signatário,
limitando gastos sociais a fim de garantir orçamento para os
serviços da dívida, acordos desse tipo prevêem
reformas estruturais, como cortes de gastos com o funcionalismo
público, privatizações e mudanças nas
leis trabalhistas.
O
Haiti, por exemplo, país atualmente ocupado militarmente, onde
80% da população vive abaixo da linha da pobreza, 4
milhões não têm assegurado seu alimento, 2,5
milhões sofrem de “insegurança alimentar crônica”
e 45% é anafalbeta” terá que cumprir com
condicionalidades macroeconomicas e sociais até 2008 para se
“beneficiar” da anulação da dívida sendo
cobrada pelo Banco Mundial, FMI e BID2.
Essas condicionalidades envolvem modernização do setor
público principalmente melhorias de governança e
transparência – o que pode se traduzir em privatizações
– reforma do Banco Central com a venda de uma parte do Banco,
mudanças nas leis de investimento e impostos para estimular o
desenvolvimento do setor privado considerado como crucial para o
desenvolvimento econômico pelas IFMs. Na maioria dos países
HIPC, essa reformas não têm resultado em aumentos nos
investimentos privados ou criação de emprego, nem
incrementado retornos financeiros para os governos; ao contrário,
os impactos têm sido negativo, um aumento significativo do
desemprego, por exemplo, como no caso de Honduras.
Com
a imposição de condicionalidades, os países não
conseguem se livrar do círculo vicioso do endividamento e da
dependência externa. Ao mesmo tempo, o montante máximo
de empréstimos obtidos por esses países sofrerá
no futuro um desconto em valor igual ao da dívida “anulada”.
Isso pode ocorrer com a diminuição do volume de
empréstimos ou diminuição no valor do empréstimo
concessional.
Enquanto
as IFMs vêm se colocando como instituições
generosas, na verdade encontraram uma nova forma de condicionar os
países, de manter-los dependentes ao financiamento externo e
assim presos ao circulo vicioso da dívida, mas melhorando sua
imagem perante a opinião pública.
Os
programas de “alívio” da dívida promovidos pelo G8
e as Instituições Financeiras Multilaterais, demonstram
uma incapacidade de resolver os problemas de endividamento dos nossos
países. Pelo contrário, favorecem um modelo que aumenta
a dependência das nossas nações e agrava a
vulnerabilidade das nossas economias. Além disso, servem para
legitimar instituições falidas que em crise de papel,
legitimidade e financeira estão se reestruturando para
consolidar-se como protagonistas do sistema político e
econômico internacional. Para
romper com esse círculo, é necessário que haja
mudanças estruturais nas práticas dos empréstimos
que criaram o problema da dívida em primeiro lugar. É
preciso que haja reconhecimento da ilegitimidade dessas dívidas
e do papel irresponsável das IFMs na criação e
manutenção do modelo de endividamento.
Reconhecer
a ilegitimidade da dívida e a responsabilidade do chamado
credor é possível
Como
conseqüência das pressões de organizações
da sociedade civil e movimentos sociais, e o reconhecimento da
ilegitimidade da dívida, no dia 3 de outubro de 2006, o
governo da Noruega anunciou a anulação da dívida
do Equador, Peru, Jamaica, Egito e Siera Leon. As dívidas
cobradas desses países por parte da Noruega originaram de um
esquema de créditos para a exportação falido do
final dos anos 70. Durante muitos anos organizações da
Noruega e do Jubileu Sul em geral argumentaram a ilegitimidade dessas
dívidas. Por isso, é bastante significativo que o
governo da Noruega tenha anulado de forma unilateral, o total da
dívida sem impor condições. Isto foi feito com
base na legitimidade da divida e no reconhecimento da
responsabilidade da Noruega na promoção de um projeto
de empréstimo falido e isso sem fazer parte de nenhum
programa.
Reflexão sobre financiamento ao desenvolvimento e alternativas.
É preciso transformar o atual modelo hegemônico de financiamento ao desenvolvimento que tem resultado no empobrecimento e exclusão da maioria da população e a destruição ambiental para garantir a autodeterminação dos povos e o fim do círculo vicioso do endividamento e do seu uso por parte dos governos do norte em interesse próprio.
Como
já apresentado durante a Cúpula Comunidade
Sul-Americana de Nações em dezembro de 2006 na Bolívia,
por organizações e movimentos sociais, articulados pela
Aliança Social Continental, propomos:
- A realização de auditorias integrais, participativas e transparentes da dívida e das Instituições Financeiras Multilaterais;
- O
fim da atual impunidade do poder financeiro;
- O
reconhecimento dos países do Sul com credores da dívida
histórica, social, cultural, ecológica e financeira;
- Evitar
a acumulação de novas dívidas e outros
compromissos que implicam da continuidade de transferências
negativas de capitais do Sul ao Norte;
- Revisão
do papel, estrutura e funcionamento das IFMs;
- O
fortalecimento de alternativas a partir dos povos e suas
organizações e impulsionar novos mecanismos de
financiamento próprio, superando as assimetrias existentes e
favorecendo a consolidação de relações
de igualdade;
- O estabelecimento de mecanismo de
monitoramento para que os novos mecanismos de financiamento
solidário entre os países do Sul não seja
aproveitados para manter antigas relações de dominação
e controle;
- Não admitir reestruturações nem conversão da divida que servem para utilizar os recursos de dívidas questionáveis, legitimar o processo de roubo e impor interesses externos;
- Exigir a anulação total, imediata e incondicional da dívida externa injustamente reclamada dos nossos países.
Os
povos do Sul não são devedores e sim credores de
dívidas históricas, sociais, econômicas e
ecológicas não mensuráveis, devidas pelos países
do Norte, suas Instituições Financeiras Multilaterais e
Corporações Multinacionais.
2Rede Jubileu Sul, Haiti: Soberania e Dignidade Missão Internacional de Investigação e Solidariedade com o Haiti, São Paulo: Editora Expressão popular, 2007

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