Banco Mundial: Wolfowitz ou Zoellick. É essa a questão? Por Fabrina Furtado:
A atual mudança na presidência do Banco Mundial representa um m

A atual mudança na presidência do Banco Mundial é um momento importante para discutir o papel da instituição. No entanto, o debate está sendo reduzido a uma briga em torno da nacionalidade do presidente. A Europa quer que seja um (é um mesmo porque sempre foi um homem) europeu e não mais um estadunidense como tem sido historicamente – obviamente orgulhosos da atuação do FMI historicamente liderada por um Europeu - enquanto outros exigem que seja de algum país do Sul. E aí, se o Demian Fiocca, ex-presidente do BNDES, fosse presidente do Banco Mundial ele mudaria a atuação da instituição? O ministro da Fazenda, Guido Mantega critica o processo dizendo que a escolha precisa ser por mérito e não nacionalidade. Correto ele, mas quem vai definir esse mérito? São as populações direta e indiretamente impactadas pelas políticas do Banco ou os tradicionais donos do poder – sejam brasileiros, estadunidenses ou europeus; todos da mesma escola neoliberal? A questão central não é de onde vem quem está no poder, nem sua capacidade de ocultar os beneficiários do seu nepotismo, mas sim a lógica que politicamente orienta a instituição. É essa a orientação que tem impacto direto na estrutura de poder e o modelo de desenvolvimento no qual o Banco se baseia para realizar seus empréstimos.

Claro que ter o Wolfowitz – ou qualquer Wolf-alguma-coisa - no poder de um Banco de fomento precisa ser questionado; não só pela questão ética decorrente do nepotismo, mas por ser um dos arquitetos da invasão do Iraque e defensor da implementação de policias neoliberais que têm sido responsáveis pela morte de milhões de pessoas no mundo todo. Mas o Roberto Zoellick - ex-secretário de comércio dos EUA - não pode ser considerado um anti-Wolfowitz como coloca a imprensa, somente porque ainda não foi flagrado com suas meias rotas ou lambendo seu pente antes de passar no cabelo ao vivo. Wolfowitz é conhecido por estas cenas.  Neste mês de maio a imprensa publicou fotos dele usando meias rasgadas e ele aparece no filme de Michael Moore Fahrenheit 11 de setembro lambendo um pentetual mudança na presidência do Banco Mundial representa um m, passando no cabelo e rindo antes de dar uma entrevista sobre a invasão do Afeganistão e do Iraque.iDa mesma forma que o Wolfowitz, Zoellick o atual nomeado do Bush, vai presidir uma instituição que se utilizando das moralistas - já que consideram saber o que é melhor para o mundo - e com certeza imorais condicionalidades aos empréstimos, promove os interesses do capitalismo das grandes multinacionais, a privatização dos serviços públicos e diminuição do Estado, o fim da soberania nacional, e se usufrui das ilegítimas dívidas externas - que foi responsável por construir - como instrumento de controle. São essas as políticas que aumentam a pobreza, desigualdade e exclusão, que promovem a privatização da vida e que contribuem de forma assustadora para um dos maiores e mais iminentes pesadelos da natureza e da humanidade: o aquecimento global. E esse fracasso do Banco de atingir seu objetivo de “ajudar as pessoas e os países mais pobresii” – fachada para seus reais interesses – não pode ser comprovado somente pelos conhecidos críticos do Banco como ONGs, movimentos sociais e alguns acadêmicos. O próprio Grupo de Avaliação Independente do Banco, concluiu que, entre 1995 e 2005, apenas um entre cada dez países tomadores de empréstimos apresentaram crescimento contínuo. Os outros nove ou estagnaram ou mergulharam numa pobreza ainda maioriii.

Todo esse controle continua ocorrendo até em países que nem mais precisam dos recursos financeiros do Banco, como o Brasil. Em 2006 o Banco Mundial desembolsou 4 bilhões de reais; o BID 3 bilhões de reais e o BNDES 52,3 bilhões de reais. A diferença é gritante. Então para quê? Para o Banco Mundial sua presença é importante para o Brasil por seu “poder convocatório” – alavanca outras parcerias! Será mesmo ou é mais uma desculpa para tentar superar o fato de que sua existência não pode mais ser justificada? Se Venezuela e Equador podem ficar sem o Banco Mundial porque o Brasil não? Porque o governo não quer!

Ao em vez de ficar perdendo tempo brigando pela presidência de um banco politicamente, financeiramente e acima de tudo eticamente falido, o Brasil deveria se preocupar em promover mudanças radicais no BNDES que está seguindo o mesmo caminho que o Banco Mundial em termos de modelo de desenvolvimento fomentado. Depois de mais de sessenta anos de Banco Mundial e FMI, está na hora de declarar que reformar essas instituições não é possível. É preciso construir alternativas! Alternativas que promovam a garantia dos direitos econômicos, culturais e socioambientais, onde todos tenham o mesmo direito e poder, que sejam governadas pelos próprios países para não construir maquinas gigantescas com salários surreais substituindo o Estado, onde seus dirigentes e funcionários sejam responsáveis perante a justiça e não tenham imunidade, que paguem impostos, onde todas as informações e arquivos sejam de domínio público e objetivem superar as assimetrias e não aumentá-las. Ou seja, alternativas do povo para o povo. Tudo isso que o Banco Mundial não faz!

Brasília 1º de junho de 2007

Fabrina Furtado
Mestre em Economia Política Internacional e Secretária Executiva da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais


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