Há 30 anos, nosso melhor economista e um dos mais brilhantes pensadores da nacionalidade brasileira já escrevia:“A
literatura sobre desenvolvimento econômico do último quarto de século
nos dá um exemplo meridiano desse papel diretor dos mitos nas ciências
sociais: pelo menos 90% do que aí encontramos se funda na idéia, que se
dá por evidente, segundo a qual desenvolvimento econômico tal qual vem
sendo praticado pelos países que lideraram a revolução industrial, pode
ser universalizado. Mais precisamente: pretende-se que os padrões de
consumo da minoria da humanidade, que atualmente vive nos países
altamente industrializados, são acessíveis ás grandes massas de
população em rápida expansão que formam o chamado Terceiro Mundo. Essa
idéia constitui, seguramente, uma prolongação do mito de progresso,
elemento essencial da ideologia diretora da revolução burguesa, dentro
da qual se criou a atual sociedade industrial”.Lembro
de Furtado nestes tempos em que a imprensa relata (com boa dose de
invencionice) um suposto antagonismo entre “desenvolvimentistas” e
“ecologistas” no governo, pontificados pelas ministras da Casa Civil,
Dilma Roussef, e Marina Silva, do Meio Ambiente. A primeira
automaticamente defende o mito contra o qual reclama o falecido
economista. A segunda até discorda do mito, mas acaba cedendo ao fácil
apelo político de que, através do “crescimento” (entendido como
sinônimo de “desenvolvimento”), enfim chegaremos “lá”.O
problema é que no “lá” da nossa vida real estão todas as consequências
sociais e ambientais que decorrem da escolha pelo poder público de
objetivos estratégicos - o tal do “desenvolvimento”. A escolha entre um
“lá” supedimensionado ou um “aqui” adequado às necessidades históricas
da maioria da sociedade brasileira significa a continuidade ou não de
um grupo no poder. Como de praxe, Dilma e Marina começam
discordando e mais à frente fecham um acordo, sempre com Marina revendo
sua posição inicial. Nesse roteiro de falso antagonismo tem entrado de
tudo: da liberação de mercadorias agrícolas transgênicas à construção
das superhidrelétricas no rio Madeira (RO), passando pela transposição
do rio São Francisco, com as ministras garantindo que desenvolvimento e
meio ambiente não se contradizem. Na prática, vão reafirmando o mito
criticado por Furtado, o da necessidade contínua de crescimento
econômico permanente.Mas, quem serve esse desenvolvimento?
Qual o seu custo? Enfim, desenvolvimento para quê? Para quem?, não se
cansava de perguntar Furtado.As mesmas questões ainda
permanecem na mais recente panacéia governamental, o PAC. É o caso de
perguntar: a quem beneficia um modelo exportador, como esse expresso no
PAC? À maioria da população, que há séculos continua necessitando de
casa, comida e saneamento básico – itens em que nossa população pobre,
negra e habitante nas franjas do “desenvolvimento” divide os índices de
qualidade com países em tragédia nacional, como o Haiti?Ou
será que as estratégias de crescimento econômico, tremendamente
concentradoras de renda, nas quais se enquadram as hidrelétricas em
Rondônia, ratificam um papel de exportador de mercadorias e de capitais
para o centro do sistema mundial, como, por exemplo, desde o final da
década de 1960 insiste outro economista brasileiro, Ruy Mauro Marini?A
mesma questão – a quem ela serve? - se coloca para a transposição do
São Francisco. Por que gastar bilhões de reais e despertar a sede de
empreiteiras como essa Gautama se o próprio Estado brasileiro aponta
que há água em quantidade e distribuição quase suficientes em todo o
Nordeste brasileiro? É o que se verifica nos mapas de
Hidrogeologia e Hidroquímica da Paraíba e Rio Grande do Norte, lançados
em 1 de junho pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
(IBGE).“As cartas são de grande importância para a gestão
pública e o futuro econômico desses estados porque buscam retratar as
possibilidades de exploração dos recursos hídricos subterrâneos,
indicando áreas mais e menos favoráveis à captação de água no subsolo,
em termos de volume e qualidade química. Tais informações são
fundamentais para a utilização racional de recursos hídricos numa
região que enfrenta inúmeros problemas causados pela seca”, diz o IBGE,
que promete lançar mapas dos demais estados nordestinos. Enfim,
para responder às questões de misticismo, é mais seguro retornar a
Celso Furtado. Esse mito do desenvolvimento, escreveu, é “um dos
pilares da doutrina que serve de cobertura à dominação dos povos dos
países periféricos dentro da nova estrutura do sistema capitalista”.
Carlos Tautz é jornalista e pesquisador do Ibase - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas
Carlos Tautz é jornalista e pesquisador do Ibase - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas

Contatos




