O Boletim da Rede Brasil, nesta edição especial “Uma Plataforma para o BNDES” realizou uma rodada de entrevistas com alguns representantes da sociedade civil e movimentos sociais sobre a criação da Plataforma BNDES, as suas proposições e o papel dos movimentos sociais na construção dessa Plataforma. Entre os entrevistados: Luciana Badin do Instituto Brasileiro Sócioeconômico (Ibase), Mabel Faria, representante da Fase e Helder Gomes da Rede Alerta contra o Deserto Verde
Boletim Rbrasil - Quando surgiu a idéia da Plataforma para o BNDES?
Luciana Badin – A plataforma surgiu a partir do amadurecimento de uma iniciativa de aproximação de um grupo de organizações da sociedade civil que chegou ao Banco de uma forma coletiva e não mais setorizada e individualizada, esse processo teve inicio em 2005. Em 2006, houve um momento que considero emblemático nesse amadurecimento que foi quando o Ibase e a Rede Brasil realizaram um seminário na sede do BNDES, no Rio de Janeiro, para discutir não apenas questões pontuais, mas a atuação do Banco em determinados setores: energia e desenvolvimento agrário. Neste seminário houve a participação de outros setores da sociedade, de movimentos sociais, como por exemplo, o Movimento dos Sem Terra, o Movimento dos Atingidos por Barragens, a Rede Alerta contra o Deserto Verde, e fica cada vez mais claro a importância de ampliarmos essa discussão e introduzir outros elementos que não somente uma discussão pontual do Banco, mas também uma questão mais propositiva, não no ponto de vista de um questionamento, uma crtica, mas também na identificação de estarmos construindo propostas para o Banco. Acredito que o Seminário “o BNDES que temos e o BNDES que queremos” pode ser considerado um marco no surgimento da plataforma.
Boletim Rbrasil - Quais propostas serão elaboradas para a plataforma BNDES no que se refere a definição dos rumos do Banco?
Luciana Badin – A plataforma está sendo construída em eixos. Identificamos que a questão da transparência e publicidade são eixos fundamentais pois sabemos que para influir no Banco precisamos primeiro ter acesso às informações que possam auxiliar efetivamente na nossa participação. O eixo da participaçãoo e controle social é fundamental na medida que desejamos interferir nos rumos do Banco. Precisamos criar espaços de interlocução de participação e controle. Identificamos também temas transversais como a questão ambiental, ética, climática, racial, territorial. Outras questões são as próprias polticas do banco, como energia, desenvolvimento rural e infra-estrutrura social, descentralização do crédito.
Boletim Rbrasil - Na sua opinião, por quais motivos o Banco não implementa algumas exigências da sociedade civil?
Luciana Badin – Acredito que o Banco nem saiba quais são estas demandas de tão fechado que é a instituição. O BNDES não tem a prática do diálogo, pois só dialoga com o setor empresarial, então ele somente conhece este lado, este ponto de vista. Como o espaço de diálogo é fechado a determinados setores e aberto a outros, o que existe é que o Banco desconhece muitas das experiências da sociedade civil. O BNDES opera pautado por uma lógica própria, por interesses de setores que ele dialoga. Acho que de alguma maneira o BNDES ainda não percebeu as oportunidades que esse diálogo podem abrir. Se por um lado alguns projetos, que geram lucro para o Banco e para determinados setores, podem ser inviabilizados, por outro muitos outras oportunidades podem despontar. Além do que, muitos "gargalos sociais" podem ser diminuídos com a ajuda do banco.
Mabel Faria – O perfil do Banco e sua criação e atuação em termos de fomentos de políticas de governo e o governo aposta que o crescimento vem nessas políticas como por exemplo políticas de exportação a partir de produtos primários do agronegócio. O governo acredita no paralelo crescimento é desenvolvimento e vem apostando nesses financiamentos, enquanto a sociedade civil acredita no contrario. Que se tem que desenvolver mercado interno, qualidade de vida. Isso exige uma discrepancia de posicionamento e interpretações de políticas de financiamentos.
Boletim Rbrasil - Algumas políticas aplicadas pelo Banco vão de encontro às insatisfações da sociedade civil. Como por exemplo os vultosos aportes ao setor de energia, participações acionárias expressivas em empresas do setor de papel e celulose, uma política ambiental insatisfatória e agora o financiamento à produção do etanol. Quais alternativas que se propõe para cada caso?
Luciana Badin – As alternativas têm de ser construídas no território, baseadas em cada localidade. O Banco tem de assumir seu caráter indutor, mas deixar claro o que ele quer induzir. Se todos dizem que é preciso desenvolver energias alternativas, que a questão climática é importante, o banco pode incentivar outras formas de geração de energia, mas para isso, ele tem de ouvir as pessoas diretamente envolvidas com esse tipo de programa, de pesquisa, incluindo amplos setores. Um Banco de desenvolvimento tem que estar a frente, assumindo seu caráter indutor e não apenas respondendo a demanda.
Helder Gomes (Rede Alerta) – A única alternativa para mim seria que o BNDES retirasse do rol de suas prioridades o financiamento da monocultura do eucalípto e da produção de celulose no Brasil e na América Latina. Dada a forma como o BNDES participou desse processo de construção de expansão da Aracruz no Brasil e já se tem uma experiência que mostra que não é um projeto que o Brasil precisa, é um projeto multinacional que não deveria ser prioridade do Banco.
Boletim Rbrasil - Qual o papel dos movimentos sociais na construção da plataforma para o BNDES?
Helder Gomes (Rede Alerta) - O movimento social brasileiro já acumulou uma experiência de organização de mobilização e é desafiado a todo momento a um salto de qualidade que ele mesmo se autodemocratizar, no sentido de organizar conselhos populares dentro da base qeu possam estar acumulando conhecimento e formulando propostas alternativas de desenvolvimento para o país a partir da organização nas bases é que você vai poder aglutinar forças para formular um projeto alternativo para a sociedade atual e portanto o salto de qualidade que se exige do movimento social é exatamente voltar-se para a constituição destes conceitos populares.
Mabel Faria – Esse papel vem de uma linha que várias redes e movimentos tem atuado no sentido de estar na disputa de políticas com o governo para que possamos carrear essas necessidades que encontramos hoje para o desenvolvimento de algumas políticas setoriais como saúde, educação, saneamento básico que vamos disputar o espaço lá dentro a partir do controle desses financiamentos em uma avaliação de impacto. è uma atuação da sociedade como um todo para discutir que polítca energética que temos, que política de saúde temos e propondo alternativas. acho qeu temos um papel fundamental hoje que não é somente ficar apontado quais os impactos negativos, mas quais políticas pŕetendemos ter. É com essa bagagem que temos que dialogar e disputar essas políticas com o Banco.

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