Intitulado “Plataforma BNDES”, desenvolvido por 27 instituições da sociedade civil, o documento que exige um compromisso do Banco com relação à questões como transparência, controle social, critérios sociais, ambientais e trabalhistas para investimentos, além de uma reorientação do BNDES em relação a algumas de suas políticas setoriais (como etanol, papel e celulose e energia) foi debatido entre o presidente do BNDES, Luciano Coutinho, instituições membros e convidados da Rede Brasil, durante a abertura da Assembléia Geral da Rede, dia 8 de agosto de 2007.
Estavam presentes na Assembléia da Rede Brasil um grupo de representantes de organizações de países latinoamericano. Alguns representantes criticaram projetos de infra-estrutura financiados pelo BNDES. Alexandra
Almeida da ONG Acción Ecológica e
a Rede Oil Watch (Equador) explicou que o Governo atual deu um duro golpe nas
empresas/investimentos dos EUA que tradicionalmente tinha a hegemonia
no país. "Porém este mesmo modelo continua
sendo implementando. O que ocorreu de fato foi uma troca de controle
dos Estados Unidos por investimentos/empresas brasileiras através
principalmente do BNDES. Alexandra citou ainda alguns projetos financiados pelo Banco, como por exemplo, o eixo
multimodal Manaus-Manta e a construção de projetos
hidrelétricos. O representante do Peru, Carlos
Bedoya do Jubileu Sul/ Latindad lembrou dos projetos da IIRSA que
tem três saídas pelo Peru – norte, centro e pelo sul -
e que são financiados pelo BNDES e executados por empresas
brasileiras buscando a saída rápida dos produtos
principalmente da Amazônia Brasileira pelo pacífico sem
considerar o desenvolvimento sub-nacional do Peru.
O encontro foi de grande importância para instituições que vêm lutando por um melhor relacionamento entre o Banco e a sociedade civil. Segundo Carlos Tautz, membro da Rede e pesquisador do Ibase, o BNDES é uma instituição chave na modelagem do tipo de desenvolvimento deste país. Por este motivo, a Rede Brasil, a partir de 2005, resolveu focar melhor seus trabalhos nesta instituição.
Para
Tautz, o Banco não vem dando ao S da sua sigla a importância
merecida. “O S é apenas um apêndice incômodo. A
Rede Brasil e o Ibase em seus monitoramentos – da instituição
- exigem que o Banco não só reoriente suas definições
e políticas, como exigem discutir a dimensao social de cada
financiamento do Banco”. Para o pesquisador do Ibase, o Banco deve
ser um instrumento para reparar as desigualdades no Brasil, e
esclarece que a expectativa em relação à nova
direção, é que seja possível colocar as
mesmas demandas da sociedade civil. Carlos ressalta que com o
lançamento do PAC, o BNDES vem com maior força
financiando áreas controvérsias como o setor
energético, desde o financiamento de hidrelétricas até
o financiamento massivo do etanol. E completa que algumas questões
como raça, genero e etnia, nunca foram levadas em consideração
na elaboração de linhas de financiamento e nos
desembolsos do Banco, assim como políticas socioambientais que
foram debatidas durante o encontro.
As
instituições solicitaram ao presidente do Banco
esclarecimento com relação a cinco setores
prioritarios: hidrelétrico, papel e celulose, etanol,
saneamento e integração regional. Além disso,
solicitaram a publicidade imediata dos projetos privados apoiados
pelo Banco. “Não temos a carteira de projetos do Banco e não
sabemos para quem o Banco empresta, só sabemos aquilo que o
BNDES deseja que a sociedade saiba, por meio da imprensa, fora isso
não há informação pública feita
pelo Banco”, diz João Roberto do Ibase.
Luciano
Coutinho - durante encontro com a sociedade civil - afirmou que
concorda com as diretrizes fundamentais da Plataforma, que segundo
ele defende um desenvolvimento socialmente igualitário.
Considera ainda que a interlocução do presidente do
BNDES com esse conjunto de organizações é
saudavel para renovar perante a direção do Banco a
compreensão da sociedade, os seus deveres enquanto Banco
público, que deve prestar conta à sociedade. “Tenho
convicção da utilidade deste diálogo e de que o
BNDES deve melhorar com a adoção de processos mais
transparentes”. Luciano prometeu aos representantes da sociedade
civil um posicionamento até o fim de agosto com relação
a publicidade dos projetos privados apoiados pelo Banco.
Coutinho
prometeu também incorporar elementos da Plataforma no
planejamento estratégico do BNDES. “Comprometo-me em trazer
a equipe do banco para fazermos um diálogo mais amplo, para
aproximar o planejamento estratégico do Banco com as
diretrizes desta plataforma” . Afirmou ainda que há uma
concentração do BNDES na região sudeste do país
e que o Banco deve engajar-se em duas iniciativas: o Programa de
Eficiencia e Conservação de Energia e energias limpas
alternativas.
Representantes
de redes, ONGs e movimentos sociais interpelaram o presidente com
algumas questões prioritárias. Maria Goreth do
Instituto de Mulheres Negras do Amapá quis saber quais são
as medidas que o Banco está tomando junto às empresas
que têm projetos em áreas quilombolas. “Estas empresas
não respeitam a cultura e nem a história destas
comunidades e estão expulsando quilombolas de seus
territórios”. O presidente do Banco não deixou
posicionamento sobre esta questão e pediu informações
especificas do projeto.
Grandes
projetos de hidreletricas foram abordados por Ricardo Montagner, do
Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). Segundo ele, o BNDES tem
financiado hidrelétricas com impacto ambiental – inclusive
com fraudes no estudo de impacto ambiental e sociais, e quis saber se
o Banco continuará financiando tais projetos. “Os projetos
financiados pelo BNDES têm impacto social que negam os direitos
dos atingidos por barragens, o desenvolvimento local onde a
hidrelétrica é construída não acontece e
quem se organiza para defender os seus direitos é
criminalizado. Para Ricardo este modelo energético atual cria
uma grande exclusão social e desequilíbrio ambiental.
Helder
Gomes da Rede Alerta abordou a expansão das monoculturas de
eucalipto e quis saber do presidente do Banco quais os instrumentos
que o BNDES pode utilizar para conhecer de perto os impactos que
estas monoculturas têm provocado em comunidades indígenas
e quilombolas. A questão da transposição do rio
São Francisco não foi deixada de lado. Uilton Tuxa da
Articulação dos Povos Indígenas do
Nordeste, Minas Gerais e Espírito Santo (APOINME) introduziu a
questão ao presidente do Banco, e questionou se a transposição
do rio São Francisco seria uma das formas de desenvolver a
região do nordeste, tendo em vista que este projeto iria
impactar populações ribeirinhas tradicionais do
nordeste, destruindo patrimônios materiais e culturais. Tuxa
não obteve resposta ao questionar o presidente do Banco de
qual seria o preço dessa destruição.
Coutinho
respondeu aos representantes das instituições que o
diálogo com a sociedade pode criar canais de comunicação
para o Banco entender, prevenir, ou buscar novos modelos de
financiamento compatível com a conservação
ambiental.
A Rede Brasil em seu papel de monitoramento desta instituição está aberta ao diálogo com o Banco para que mudanças possam ocorrer, e que o Banco seja um instrumento para reparar as desigualdade no país.

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