É para a região amazônica que se dirigem as “fronteiras” econômicas, agrícola, energértica e tecnológica do país. Contando com 60% da superfície nacional, a Amazônia não é simplemente espaço de expansão, mas espaço de projeção em que o país pode ser confirmado ou desfeito. Em um contexto de interconexão dos mercados e de harmonização de processos políticos decisórios em escala global, os “recursos naturais” da Amazônia passam a ser vistos como estoques, mercados de commodities ou de futuros, a serem regulados pelos conglomerados transnacionais. A “governança” que querem é a que proporciona capacidade de administração meticulosa da expansão das fronteiras dos negócios oligopolizados.
Nos anos 70 e 80, o regime militar procurou incorporar a Amazônia à estrutura produtiva do centro-sul e, por derivação, aos circuitos produtivos mundiais através de obras viárias e de incentivos a grandes projetos minerais e agropecuários. Nas últimas décadas, com os governos FHC e Lula, programas de interconexão de infra-estrutura (Avança Brasil, IIRSA, PAC) pretenderam vincular diretamente a região à dinâmica desses circuitos através de um processo de “integração regional” . Integração essa que não passa de um novo ciclo de internacionalização do continente gerido de forma conjunta pelos Estados nacionais sul-americanos, em processo de desmonte, sob regência do FMI e bancos multilaterais.
O resultado dessas políticas instrumentalizadoras e fragmentadoras foi uma sucessão de enclaves em rotação, um enorme território a disposição dos investidores privados e de suas encomendas. Projetos e programas patrocinados pelo Banco Mundial para a região amazônica, tais como o PP-G7 e ALFA, revelam a tentativa de “racionalizar” esse processo de incorporação, de forma que a espoliação seja sustentável e duradoura. O fato das políticas vigentes, com foco e prioridade na região amazônica, estarem subordinadas a instituições financeiras multilaterais revela um perigoso vazio de projeto nacional e regional.
A Amazonia como construção nativa, diversa e popular está sendo inviabilizada pela Amazônia das redes verticais, com centros decisórios externos que desprezam encadeamentos internos e compromissos com a população. Um banco público de fomento como BNDES em primeiro lugar precisa rever todo e qualquer financiamento e/ou parceria que reforce esse padrão privado e monopolista de incorporação da Amazônia. O preço de não deter o processo de expansão das frentes reprimarizadoras da nossa economia na Amazônia será a cristalização de um modelo rebaixado e assimétrico, tornando-o irreversível. A Amazônica como estoque de matérias primas, escoadouro energético e eixo viário bioceânico, a serviço das cadeias de suprimento no Oceano Pacífico, representaria uma derrota histórica da possibilidade de construirmos uma nação justa e soberana.
Para além da lógica conservacionista, que se mostra muito funcional ao processo de mercantilização da Amazônia(estoques de capital natural, controle privado da biodiversidade e das águas, gestão corporativa do território), é preciso que se conceba uma base produtiva regional que seja fruto da potencialização e qualificação das atividades extrativistas, agrícolas, de serviços e industriais de base local.
A geração energética a ser obtida na Amazônia precisa ser submetida a um planejamento público nivelador em função dos interesses das comunidades que nela vivem. Fundos de inovação devem ser criados para dar suporte a cadeias tecnoprodutivas em biodiversidade, com agregação gradativa de valor de baixo para cima, a partir da unidades de pesquisa/aplicação/extensão biotecnologicas descentralizadas em cidades em que se possam entrecruzar escolas técnicas, universidades, órgãos públicos, cooperativas, assentamentos e pequenas empresas.
Uma política industrial e tecnológica específica deve ser adotada na Amazônia com critérios de seletividade para P&D em biofarmácia, indústria alimentícia e cosmética diferenciadas e fontes alternativas de energia. Além disso, redes de serviços em turismo e cultura regional devem ter acesso a crédito especial para sua qualificação e expansão.Toda a logística concebida para a Amazônia como vetor de desintegração nacional e regional precisaria ser revista. Integração energética e viária para maior escoamento de matérias-primas ou voltada para o fortalecimento de novas cadeias produtivas, com ênfase na biotecnologia, voltadas para o mercado interno e regional?
Qual Amazônia, qual Brasil?
Luis Fernando Novoa, sociólogo e professor da Universidade Federal de Rondônia
Nos anos 70 e 80, o regime militar procurou incorporar a Amazônia à estrutura produtiva do centro-sul e, por derivação, aos circuitos produtivos mundiais através de obras viárias e de incentivos a grandes projetos minerais e agropecuários. Nas últimas décadas, com os governos FHC e Lula, programas de interconexão de infra-estrutura (Avança Brasil, IIRSA, PAC) pretenderam vincular diretamente a região à dinâmica desses circuitos através de um processo de “integração regional” . Integração essa que não passa de um novo ciclo de internacionalização do continente gerido de forma conjunta pelos Estados nacionais sul-americanos, em processo de desmonte, sob regência do FMI e bancos multilaterais.
O resultado dessas políticas instrumentalizadoras e fragmentadoras foi uma sucessão de enclaves em rotação, um enorme território a disposição dos investidores privados e de suas encomendas. Projetos e programas patrocinados pelo Banco Mundial para a região amazônica, tais como o PP-G7 e ALFA, revelam a tentativa de “racionalizar” esse processo de incorporação, de forma que a espoliação seja sustentável e duradoura. O fato das políticas vigentes, com foco e prioridade na região amazônica, estarem subordinadas a instituições financeiras multilaterais revela um perigoso vazio de projeto nacional e regional.
A Amazonia como construção nativa, diversa e popular está sendo inviabilizada pela Amazônia das redes verticais, com centros decisórios externos que desprezam encadeamentos internos e compromissos com a população. Um banco público de fomento como BNDES em primeiro lugar precisa rever todo e qualquer financiamento e/ou parceria que reforce esse padrão privado e monopolista de incorporação da Amazônia. O preço de não deter o processo de expansão das frentes reprimarizadoras da nossa economia na Amazônia será a cristalização de um modelo rebaixado e assimétrico, tornando-o irreversível. A Amazônica como estoque de matérias primas, escoadouro energético e eixo viário bioceânico, a serviço das cadeias de suprimento no Oceano Pacífico, representaria uma derrota histórica da possibilidade de construirmos uma nação justa e soberana.
Para além da lógica conservacionista, que se mostra muito funcional ao processo de mercantilização da Amazônia(estoques de capital natural, controle privado da biodiversidade e das águas, gestão corporativa do território), é preciso que se conceba uma base produtiva regional que seja fruto da potencialização e qualificação das atividades extrativistas, agrícolas, de serviços e industriais de base local.
A geração energética a ser obtida na Amazônia precisa ser submetida a um planejamento público nivelador em função dos interesses das comunidades que nela vivem. Fundos de inovação devem ser criados para dar suporte a cadeias tecnoprodutivas em biodiversidade, com agregação gradativa de valor de baixo para cima, a partir da unidades de pesquisa/aplicação/extensão biotecnologicas descentralizadas em cidades em que se possam entrecruzar escolas técnicas, universidades, órgãos públicos, cooperativas, assentamentos e pequenas empresas.
Uma política industrial e tecnológica específica deve ser adotada na Amazônia com critérios de seletividade para P&D em biofarmácia, indústria alimentícia e cosmética diferenciadas e fontes alternativas de energia. Além disso, redes de serviços em turismo e cultura regional devem ter acesso a crédito especial para sua qualificação e expansão.Toda a logística concebida para a Amazônia como vetor de desintegração nacional e regional precisaria ser revista. Integração energética e viária para maior escoamento de matérias-primas ou voltada para o fortalecimento de novas cadeias produtivas, com ênfase na biotecnologia, voltadas para o mercado interno e regional?
Qual Amazônia, qual Brasil?
Luis Fernando Novoa, sociólogo e professor da Universidade Federal de Rondônia

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