Planalto retoma negociação com bispo
Governo propõe construção de cisternas no semi-árido e só deve retomar obras de transposição no dia 7
Leonencio Nossa
O Palácio do Planalto retomou ontem as negociações com o bispo de Barra (BA), d. Luiz Flávio Cappio, que completou ontem 21 dias em greve de fome em protesto contra a transposição do Rio São Francisco. Pela manhã, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deixou claro que o fim das obras não está em jogo, mas autorizou auxiliares a discutirem propostas que facilitem o diálogo, como a revitalização do rio e a construção de um milhão de cisternas no semi-árido. “Mas, parar as obras, nem pensar”, ressaltou o presidente.
O projeto ficará suspenso até o dia 7 de janeiro. Assessores do Planalto avaliam que a folga do Exército, que executa os trabalhos, cria um clima de “distensão” e “negociação”.
As obras estão paralisadas no momento por uma decisão judicial, tomada pelo Tribunal Regional Federal (TRF) da 1.ª Região na semana passada. A combinação do recesso das tropas do Exército com a liminar do TRF de Brasília abriu uma janela de oportunidade para o governo federal, que aproveitou a situação para formular ao bispo uma saída honrosa da greve de fome. A paralisação forçada das obras seria o pretexto.
Em conversa por telefone no sábado, um padre ligado a d. Luiz propôs a Gilberto Carvalho, chefe de Gabinete da Presidência da República, que o governo retomasse o projeto de construção de cisternas, engavetado desde 2003. Isso facilitaria a negociação.
Ainda no sábado, Carvalho falou pelo telefone por dez minutos com o próprio d. Luiz, que reclamou da “insensibilidade” do governo. O bispo, no entanto, afirmou que iria conversar com pessoas próximas a respeito do projeto das cisternas. Mais tarde, um assessor do religioso telefonou para dizer que só haveria diálogo se as obras fossem mesmo interrompidas.
Ontem, no final da manhã, Carvalho esteve na Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), a convite do secretário-geral da entidade, d. Dimas Barbosa. Uma nova visita do chefe de Gabinete aos bispos deve ocorrer, dessa vez acompanhado de técnicos do governo. Lula orientou o assessor a discutir com d. Luiz apenas projetos de revitalização e construção de cisternas.
IGREJA
A suspensão temporária das obras é uma saída honrosa para ambos os lados, disse um interlocutor ligado à Igreja Católica. Anteontem, o bispo de Barra rejeitou pedido do Vaticano para que interrompesse o “gesto extremo” da greve de fome.
D. Luiz justificou sua recusa dizendo que deve obediência ao papa Bento XVI, e que a carta representa somente um pedido, que pode ser acatado ou não.
D. Luiz Cappio garante que greve de fome segue
Tiago Décimo
Nem a precária condição de saúde nem a proposta do presidente Luiz Inácio Lula da Silva de paralisar as obras até 7 de janeiro sensibilizaram o bispo de Barra (BA), d. Luiz Flávio Cappio. Ele reafirmou sua posição de manter a greve de fome até que o projeto seja definitivamente paralisado.
“A proposta do governo de parar as obras não é uma política do Executivo, mas uma decisão judicial - contra a qual, inclusive, o governo já entrou com pedido de suspensão”, justifica o bispo, referindo-se à liminar expedida pelo Tribunal Regional Federal de Brasília, no dia 10.
O religioso, agora, concentra suas atenções na apreciação, por parte do Supremo Tribunal Federal (STF), do projeto de transposição, prevista para amanhã, em Brasília. “Nossas esperanças se voltam para o Judiciário, que, diante de tantas ilegalidades cometidas pelo Executivo no afã de impor este projeto, tem a chance de restabelecer a Justiça e o Direito”, afirma, em nota enviada aos ministros do STF. O relator é o ministro Menezes Direito.
O bispo, que ingeria apenas soro caseiro desde a primeira semana de jejum, começou a receber ontem atendimento médico constante. Clínico geral com especialização em medicina natural, o frei Klaus Finkam foi convidado por d. Luiz para acompanhá-lo.
Já no primeiro dia de acompanhamento, Finkam pediu uma série de exames laboratoriais e suspendeu a ingestão de soro caseiro pelo bispo. “Ele não está desidratado”, justificou. Assim, d. Luiz volta a ingerir apenas água e a beber soro caseiro quando houver necessidade.
Apesar disso, o bispo, que já perdeu 8 quilos, passou a ter crises de hipotensão e de cefaléia. Segundo boletim médico, o estado geral de saúde apresenta “certa fragilidade”. O médico, porém, ressalta que d. Luiz está lúcido, não apresenta sintomas neurológicos e tem todas as funções fisiológicas normais.
O ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, esteve ontem em Salvador, onde assinou, com o governador Jaques Wagner, ordens de serviços para a realização de obras de irrigação no Estado. Eles evitaram comentar a greve de fome do bispo.
Manifestantes fazem jejum pelo País em apoio a religioso
Atos de solidariedade aconteceram no AM e no RS, entre outros Estados
Liege Albuquerque, Elder Ogliari, Clarissa Thomé, Leonencio Nossa, Tiago Décimo, Ricardo Rodrigues, Adelson Santos, Lauriberto Braga e Rafael Carvalho
De Norte a Sul do País pipocam movimentos de solidariedade a d. Luiz Flávio Cappio. Militantes de movimentos ambientais e religiosos participam de protestos e cumprem jejuns simbólicos para solidarizar-se com o bispo de Barra (BA). Em Manaus, 18 pessoas mantiveram jejum durante todo o dia de ontem, na Igreja de São Sebastião, enquanto religiosos franciscanos e da Caritas e jovens da Renovação Carismática da Igreja Católica oravam no templo, desde as 7h30.
Em Porto Alegre, 7 pessoas iniciaram ontem um jejum de 48 horas no saguão do Tribunal de Justiça do Estado, em solidariedade a d. Luiz. O grupo tem representantes do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), Caritas, Comissão Pastoral da Terra (CPT), estudantes e ecologistas. Durante a manifestação, pessoas que transitavam no local eram convocadas a subscrever mensagens de apoio ao bispo. A greve de fome irá até o meio-dia de amanhã.
No Rio, militantes fizeram durante todo o dia vigília em solidariedade à greve de fome de d. Luiz, em frente à Igreja da Candelária, no centro. Um grupo de 20 pessoas participou da vigília e pelo menos 2 pessoas cumpriram jejum que durou todo o dia - a pastora metodista Nancy Cardoso e o assessor parlamentar Roberto Moraes. A vigília reuniu militantes do MST, da Conlutas e do PSOL.
Em Brasília, pessoas ligadas a movimentos como a Via Campesina e Centro de Estudos Bíblicos fizeram jejum em solidariedade ao bispo na Praça dos Três Poderes, em frente ao Palácio do Planalto. À tarde, 11 militantes de movimentos sociais cobravam do governo que negociasse para salvar d. Luiz.
FRENTE
A Frente Cearense contra a Transposição do Rio São Francisco comandou em todo o Ceará um dia de vigília e jejum em apoio a d. Luiz. Em Fortaleza, 5 pessoas começaram um jejum de 24 horas, na praça da Igreja de Nossa Senhora das Dores. A vigília cearense se estende às cidades de Crateús, Crato, Sobral, Limoeiro do Norte, Tianguá, Iguatu e Itapipoca.
Em Salvador, 500 militantes de movimentos sociais e religiosos entregaram uma carta de apoio a d. Luiz e de repúdio à transposição ao governador Jaques Wagner (PT). Na Praça do Campo Grande seguia a vigília de apoio a d. Luiz. Simpatizantes da causa recolheram assinaturas num abaixo-assinado de solidariedade ao bispo.
Em Palmeira dos Índios (AL), a 170 quilômetros de Maceió, movimentos religiosos e de quilombolas participaram de um ato contra a transposição do Rio São Francisco, organizado pela Caritas Diocesana local.
Em Florianópolis, 20 pessoas jejuaram na Catedral Metropolitana, das 8 às 18 horas, em homenagem a d. Luiz. Instituições e entidades como a CPT, o Cimi, o MST e o Grupo de Ação Social Arquidiocesana de Florianópolis apoiaram a manifestação.
Em João Pessoa, entidades católicas promoveram um ato de solidariedade ao bispo de Barra. A manifestação reuniu padres, freiras, teólogos, missionários, sindicalistas, estudantes e agricultores vinculados a 20 entidades que são contra a transposição.
Para especialistas, bispo pode resistir até 60 dias se continuar tomando soro
Simone Iwasso
Após mais de duas semanas sem receber alimento, o corpo humano passa a economizar energia e entra num estado de adaptação para sobreviver durante um jejum prolongado. Todas as ações básicas, como respiração e batimento cardíaco, começam a ser feitas com gasto menor de energia.
A gordura acumulada no organismo, então, transforma-se no combustível energético - e é a quantidade de tecido gorduroso que cada pessoa tem que determinará quantos dias ela poderá agüentar antes que seus órgãos comecem a falir ou que o corpo adquira alguma infecção.
“É muito difícil prever quanto tempo uma pessoa agüenta nessa situação, porque depende da idade, da quantidade de gordura no corpo, da presença de alguma outra doença associada, que pode deixar a pessoa mais frágil”, explica o médico especialista em nutrologia Dan L.Waitzberg, diretor-presidente do Grupo de Apoio de Nutrição Humana (Ganep).
Mas pode-se dizer que, em um indivíduo saudável, essa média pode chegar a até dois meses. “Alguém normal, que tenha entre 15% a 20% de gordura no corpo, que esteja bebendo apenas água, sem mais nenhuma outra substância, pode agüentar até 60 dias”, afirma.
No caso de d. Luiz Flávio Cappio, que hoje completa 22 dias de jejum, a idade avançada pode ser um complicador. De acordo com boletim médico divulgado pelo frei Klaus Finkam, o bispo de 61 anos estava recebendo até então uma solução de soro caseiro (mistura de água, sal e açúcar).
A partir de 60 dias sem comer, além de perder muito peso, o corpo começa a inchar, já que acumula uma quantidade acima do normal de líquidos em todos os órgãos. Isso ocorre porque o rim passa a ter dificuldade para trabalhar, assim como o coração. No quadro geral, a pessoa já está sofrendo de insuficiência renal e cardíaca.
Paralelamente, como não há mais ingestão de glicose e o estoque de gordura deve ter chegado ao fim, o corpo retira a pouca energia que ainda precisa das proteínas. Com isso, as proteínas presentes no sangue começam a rarear, ficando em níveis abaixo do normal. Todos os órgãos perdem funções.
“Surgem as infecções, aparece uma pneumonia. E isso, num organismo desnutrido, é muito grave. Já é sinal de que a pessoa precisa ir para uma Unidade de Terapia intensiva (UTI)”, explica o médico.
NOTICIAS DA FOLHA DE SAO PAULO 18 de dez 07
"Ministro Patrus não tem qualificação para falar da transposição", diz bispo
DA AGÊNCIA FOLHA, EM SOBRADINHO (BA)
Oito quilos mais magro e com sangramento nos lábios, o bispo de Barra (BA), d. Luiz Cappio, 61, disse ontem, em Sobradinho, que o ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social) é "desqualificado" e "desinformado" para falar sobre a transposição das águas do rio São Francisco.
As críticas foram uma resposta à entrevista do ministro à Folha publicada ontem. Patrus disse que o bispo tem sido "intransigente" e que seu protesto é um extremo "inaceitável". Afirmou que é favorável à transposição e que o jejum dificulta negociações.
"Fiquei muito decepcionado com as declarações dele", disse. "Sempre tive o ministro em altíssima conta, mas ele demonstrou total falta de idoneidade para poder falar sobre o assunto." Dom Luiz disse ainda que Patrus é "totalmente alheio à situação do rio e dos movimentos sociais".
Ontem, pela primeira vez desde o início da greve, o bispo não celebrou a missa no fim da tarde na Igreja de São Francisco. Ele só acompanhou a cerimônia, usando um travesseiro para amparar a cabeça. Pela manhã, alegou cansaço e deixou de descansar à sombra de uma árvore pela primeira vez desde o começo do jejum. D. Luiz disse ao médico que o acompanha, frei Klaus Finkan, que sentia dores de cabeça e fraqueza.
Em boletim, Finkan informou que ele apresenta "certa fragilidade" em seu estado geral, mas que está "lúcido" e sem problemas neurológicos. Ainda segundo a nota, d. Luiz "se expressou firme no propósito de continuar o jejum".
Segundo o médico, o sangramento na boca é resultado do ressecamento dos lábios. Ele suspendeu a ingestão do soro caseiro e determinou que d. Luiz beba apenas água. "Ele não está desidratado nem com diarréia." Para controlar e prevenir os problemas, a família do bispo usa métodos "naturais". Ele é submetido duas vezes por dia a um "escalda-pés", que visa manter o bom funcionamento dos rins. A pressão arterial é verificada ao menos duas vezes por dia. Quando está baixa, o bispo tem os braços mergulhados em água gelada.
Cerca de cem pessoas estão em vigília em Sobradinho. Em Porto Alegre, um grupo de seis ambientalistas ligado ao Conselho Indigenista Missionário e ao PSOL começou um jejum solidário de 48 horas.
Planalto negocia com bispo fim de jejum
Proposta envolve construir cisternas e acelerar revitalização do rio São Francisco; d. Luiz diz que oferta é "indecorosa'
Lula teria imposto como condições à abertura de uma negociação que obras não sejam paralisadas e que propostas venham do bispo
FELIPE SELIGMAN
DA SUCURSAL DE BRASÍLIA
FÁBIO GUIBU
DA AGÊNCIA FOLHA, EM SOBRADINHO (BA)
O Palácio do Planalto iniciou, no fim de semana, um intenso diálogo com d. Luiz Flávio Cappio, 61, bispo de Barra (BA), na expectativa de uma possível interrupção da greve de fome do religioso, que completa hoje 21 dias. O governo, porém, diz continuar firme em sua posição de não interromper as obras de transposição do rio São Francisco, motivo do jejum.
O bispo negou ontem que esteja negociando com o governo. Confirmou ter recebido propostas do chefe-de-gabinete do presidente Lula, Gilberto Carvalho, mas disse que as considerou "indecorosas".
As negociações começaram no sábado, quando Carvalho recebeu uma ligação do padre de Lins (SP) José Oscar Beozzo. Procurado pela Folha, o padre se limitou a dizer que "não está autorizado" a comentar o assunto. Beozzo teria acenado pela abertura do diálogo caso o governo aceite ampliar um programa que prevê a construção de 1 milhão de cisternas no semi-árido nordestino. Segundo os assessores do bispo, Beozzo agiu por conta própria.
A Folha apurou que Lula autorizou Carvalho a dar continuidade às conversas, mas impôs duas condições: 1) as obras devem continuar a qualquer custo e 2) o governo não deve apresentar propostas, esperando que elas cheguem do bispo.
Carvalho, então, telefonou para d. Luiz, afirmando que aceitava a ampliação do programa. No mesmo dia, porém, Rubem Fonseca, emissário do religioso, teria avisado que o bispo desistira das conversas.
Mas, no domingo, o secretário-geral da CNBB (Conferência Nacional dos Bispos do Brasil), d. Dimas Lara Barbosa, procurou o representante do Planalto para avisá-lo que d. Luiz "estaria aberto às negociações" e convidou-o para uma reunião, em Brasília, com representantes de entidades religiosas que apóiam o bispo.
Na reunião, Carvalho teria aumentado a proposta: além de ampliar o programa das cisternas, o governo aceleraria a revitalização do rio. Em troca, o bispo encerraria o jejum. Hoje, Carvalho deve voltar à CNBB, com técnicos do governo, para "concretizar" a proposta.
O bispo, porém, diz que não haverá acordo. Lembra que a promessa de "esforço do governo" para a aprovação da PEC (Proposta de Emenda à Constituição) que destina R$ 250 milhões anuais à revitalização do rio já havia sido feita há dois anos, em sua primeira greve de fome, e não foi cumprida. Sobre as cisternas, diz que o projeto tem sete anos e que, até agora, apenas 200 mil delas foram construídas no sertão.
Embargo
Na semana passada, Lula recebeu o comando da CNBB. Disse aos bispos que não interromperá as obras e que a greve de fome de d. Luiz é um problema exclusivo da igreja.
Em entrevista à Folha, publicada ontem, o ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social) afirmou que o bispo tem sido "intransigente" e que a linha de sua greve de fome é um extremo "inaceitável".
As obras estão embargadas pela Justiça Federal desde 11 de dezembro. O governo recorreu ao STF, que deve analisar o pedido amanhã. Mesmo se a liminar for derrubada, as obras só devem ser retomadas após 7 de janeiro, quando os militares do Exército voltam do recesso.
Em apoio a d. Luiz, pouco mais de dez representantes de movimentos sociais começaram ontem um protesto silencioso em frente ao Planalto.
Fontes: O estado de São Paulo e Folha de São Paulo

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