"Imperialismo" brasileiro:

"Imperialismo" brasileiro 
 
Carlos Tautz 
O governo brasileiro aparentemente acredita que a IIIRSA é o caminho para concretizar a Comunidade Sul-Americana de Nações, idéia da equipe do presidente Lula para eclipsar as negociações da Alca - que os EUA querem retomar na Cúpula das Américas, a ser realizada em Mar del Plata, na Argentina, em novembro. (reproduzido do site do Ibase) 
 
É difícil para um brasileiro imaginar que a política externa do seu país fosse algum dia equiparada ao expansionismo dos Estados Unidos e da Inglaterra, que ao longo dos séculos impuseram a sua vontade e até mesmo presença física a outros povos e países. Mas, a ação de empresas brasileiras na América do Sul e a declarada intenção de o governo brasileiro liderar um bloco econômico regional estão levando organizações da sociedade civil e povos vizinhos, especialmente indígenas do Equador, a reclamar do que chamam de "imperialismo" brasileiro.
Empreiteiras privadas brasileiras, como a Odebrecht, e estatais do porte da Petrobras e do BNDES têm demonstrado voracidade por financiar, construir e explorar megaprojetos em países sul-americanos, ocupando espaços de grande ocorrência de recursos naturais, em sistemas ecológicos sensíveis, e com evidente importância geopolítica. O argumento, aparentemente nobre, para realizar esses projetos é a necessidade de integrar economicamente a América do Sul.
As empresas têm se aproveitado de legislações ambientais menos restritivas e da evidente assimetria de escala entre as economias do Brasil e a de seus vizinhos para brigar pela primazia de tocar grandes projetos de infra-estrutura. As empreiteiras, mais especificamente, objetivam, assim, manter em funcionamento velhos e manjadíssimos esquemas de viabilização financeira de grandes obras que trazem à memória o engenheirismo do Brasil Grande, quando projetos faraônicos eram desenvolvidos a despeito do desejo da sociedade, concentravam brutalmente a renda e ajudavam a transformar o País em um dos mais desiguais do planeta.
Ainda não é adequado classificar essa atuação de imperialismo. Isso denotaria a existência de uma vontade de se sobrepor aos demais para garantir interesses próprios. Em verdade, o que se verifica é a ganância das empresas brasileiras, motivadas por um aparente excesso de liquidez interna.
Esse "imperialismo" brasileiro é verificado mais fortemente na implantação da Iniciativa para Integração da Infra-Estrutura da Região Sul-Americana (Iirsa), que planeja normatizar as leis dos países envolvidos para facilitar o escoamento, principalmente, de bens primários e construir mais de 300 rodovias, pontes, hidrelétricas, gasodutos e outras obras, com custo de mais de US$ 50 bilhões ao longo de uma década.
Coordenada e financiada parcialmente pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), a IIRSA tem entre seus projetos várias intenções de financiamento do BNDES, que deseja aplicar nessa Iiniciativa parte do seu fabuloso orçamento de R$ 60 bilhões, quantia 10% maior do que o orçamento do Banco Mundial.
Quando se olha com mais atenção os projetos propostos pela Iirsa, encontram-se casos estranhos.Um deles- estranhíssimo - é o complexo de hidrelétricas que Furnas e a Odebrecht pretendem construir no Rio Madeira, em Rondônia, na fronteira com a Bolívia. O objetivo é produzir 11 mil MW, cerca de 15% do consumo atual de eletricidade no Brasil. Até o momento, as empresas não revelaram aonde encontrarão compradores de tamanho bloco de energia, uma vez que o Brasil, após o quase apagão de 2001, modernizou várias linhas de produção e reduziu drasticamente seu consumo. Hoje, necessita de muito menos eletricidade do que em 2000.
No Parque Yasunín, no Equador, a Petrobras também anda fazendo das suas. É acusada por grupos indígenas daquele país de aplicar padrões ambientais mais permissivos do que os nossos, aproveitando da volúpia do governo local por receber o capital brasileiro. E o BNDES, por sua vez, já anunciou e depois recuou, temporariamente, da intenção de financiar a construção de um aeroporto apresentado como ponto de apoio para o trânsito de turistas. Coincidentemente, essa obra também seria adequado ao transporte de material bélico em região convulsionada pelas tropas dos EUA, que desenvolvem no país vizinho seu Plano Colômbia.
O governo brasileiro aparentemente acredita que a IIIRSA é o caminho para concretizar a Comunidade Sul-Americana de Nações, idéia da equipe do presidente Lula para eclipsar as negociações da Alca - que os EUA querem retomar na Cúpula das Américas, a ser realizada em Mar del Plata, na Argentina, em novembro. Mas, a equipe do Ministério das relações Exteriores erra porque tenta alcançar o objetivo da integração sem o debate público, o que evitaria que os brasileiros fossem confundidos com "imperialistas".
 
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*Jornalista. É pesquisador do Ibase - Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas e membro da coordenação da Rede Brasil Sobre Instituições Financeiras Multilaterais.

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