O G8 COMO ATOR ESTRATÉGICO NAS RELAÇÕES MONETÁRIAS INTERNACIONAIS:

Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais
Brasília, 06 de junho de 2005

O Que é o G8
O G8 (ou “grupo dos oito”) é um conjunto de representantes de oito países – inicialmente seis – que se reúnem desde meados da década de 1970 para tratar de assuntos internacionais.

A primeira reunião desse grupo ocorreu em 1975, em Rambouillet, na França, por iniciativa do então presidente daquele país, Giscard D’Estaing. Os países representados nessa primeira reunião eram em número de seis: França, Estados Unidos, Grã-Bretanha, Alemanha, Japão e Itália. Aos representantes desses países juntou-se o da Canadá, no encontro de 1976, ocorrido em San Juan, Costa Rica. Desde 1994, quando foi realizada a cúpula de Nápoles (Itália), a Rússia passou a integrar esse grupo de países precariamente, tendo adquirido status de membro pleno (e nessa qualidade passou a ser convidada a participar das discussões de todos os assuntos em pauta) a partir da cúpula de Birmingham, 1998.

O G8 é presidido, em rodízio, por cada um dos países-membros. O país que exerce a presidência propõe a ordem do dia e o local da cúpula e organiza as reuniões preparatórias.


Elitismo Diplomático em Benefício Próprio
Circula na imprensa a imagem de que as reuniões do G8 correspondem a encontros diplomáticos de grandes líderes mundiais com espírito benevolente e com a missão de resolver problemas que afetam as relações entre os seus países e a comunidade internacional como um todo. Contudo, na realidade, o G8 é uma forma de prática da diplomacia de cúpula, em que chefes de estados ricos e poderosos coordenam políticas entre si, à exclusão dos interesses de países em desenvolvimento e de fóruns multilaterais onde há maior representatividade formal de interesses dos diversos países do mundo. Este tipo de concertação diplomática elitista do G8 contrasta, de fato, com o papel que o multilateralismo adquiriu depois da 2a Guerra Mundial, com a criação da Organização das Nações Unidas (ONU) – no seio da qual se formou o G77, integrado por representantes países em desenvolvimento. O G7 se desenvolveu como um poder acima até mesmo das chamadas “Instituições de Bretton Woods” (IBWs), após a crise que afetou a cooperação monetária internacional nos anos 1970.

Com efeito, a criação, em 1944, do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial (BM) – que em conjunto ficaram conhecidas como “Instituições de Bretton Woods” – inaugurou uma nova era nas relações econômicas internacionais. Pela primeira vez na história, foram criadas Instituições Financeiras Multilaterais (IFMs) com a missão de promover a cooperação monetária internacional com base em um sistemas de regras públicas.

Caberia ao Banco Mundial contribuir para a reconstrução dos países devastados pela 2a Guerra Mundial, e ao FMI a incumbência de presidir um regime internacional de cambio fixo, abrindo espaço de manobra para que a taxa de câmbio dos diversos países membros ficasse relativamente protegida durante crises do balanço de pagamentos, e também para que esses mesmos países pudessem implementar políticas que promovessem objetivos de interesse nacional, favoráveis ao desenvolvimento interno, sem que com isso assumissem riscos cambiais incontroláveis.

Contudo, o financiamento inflacionário da Guerra do Vietnã, juntamente com outros fatores, provocou uma aguda crise de confiança no dólar, a ponto de levar o presidente americano, R. Nixon, a decretar a inconversibilidade da moeda de seu pais em ouro, o que correspondeu a um golpe de morte no sistema de cooperação monetária de caráter multilateral montado depois da 2a Guerra.
 
 
A partir disso, as relações de coordenação macroeconômica e cambial entre os países passou a ficar, cada vez mais, a cargo de encontros informais e sem qualquer transparência ou accountablity da parte de seus membros. Reuniões do G3, G5, G7 (rebatizado de G8 com a entrada da Rússia, como já explicitado), um pequeno clube de amigos, representantes de países ricos, que decidem informalmente sobre a cooperação monetária internacional, à margem de qualquer regra pública que dê alguma chance para diálogo e negociações com os que sofrem diante de conseqüências das políticas adotadas a partir de entendimentos ocorridos. Na esteira dessas mudanças, o FMI e o Banco Mundial adquiriram novo papel, fazendo dobradinha na implementação dos chamados “ajustes estruturais”.

O crescimento da importância do G7, transformado em G8, coincide, aproximadamente, com o declínio do prestígio político do Movimento dos Não-Alinhados, com a neutralização de iniciativas como a do chamado “Diálogo Norte-Sul” e com o esvaziamento do papel de entidades como a UNCTAD (United Nations Conference for Trade and Development), todas oportunidades favoráveis a um maior papel dos países em desenvolvimento na definição da ordem internacional e suas transformações.

O campo dos interesses tratados pelo G8 era originalmente o de questões econômicas, monetárias e financeiras, mas foi gradualmente ampliado para tratar de questões políticas e de segurança global (terrorismo). Além disso, hoje, os ministros das Finanças dos países do G7 e os diretores de seus Bancos Centrais reúnem-se em geral três vezes por ano, inclusive duas vezes à margem das reuniões da primavera e do outono do FMI e do Banco Mundial, para fazer um balanço da evolução da economia mundial e coordenar as suas posições a respeito das grandes questões financeiros do momento.

Assim sendo, por não ter caráter institucional, nem personalidade jurídica ou secretaria permanente, o G8 é na verdade um seleto clube dos ricos, que se consultam e se reúnem em intervalos regulares para reforçar a harmonia entre si e garantir sua influência sob as grandes questões econômicas e políticas internacionais.

O grau de elitismo e a falta de accountabiltiy ou transparência das reuniões do G8, que nem mesmo tem uma secretaria fixa, torna esse clube exclusivista uma realidade inaceitável para os países em desenvolvimento, principalmente quando suas políticas, as quais dominantes, favorecem os países ricos em detrimento dos mais pobres.

Protestos da Sociedade Civil
Desde a criação do G8, o mundo tem assistido um aumento no número de pobres, incremento das desigualdades e destruição crescente do meio ambiente. Consequentemente, as cúpulas têm sido criticada pela sociedade civil. A principal crítica é que, em 30 anos de existência, o G8 não melhorou a situação dos mais pobres. Ao contrário, persiste em prescrever receitas para os países em desenvolvimento (e os mais pobres nos países desenvolvidos também) baseadas em um modelo neoliberal de arrocho fiscal e cortes de gastos sociais, diminuição do papel social do Estado e privilegiamento do capital financeiro. O G8, através das Instituições Financeiras Multilaterais, tem pressionado os países em desenvolvimento para liberarem cada vez mais seus mercados financeiros e comerciais, com efeitos destrutivos sobre seus recursos naturais, sacrificados em troca de pagamento da dívida externa.
 
 
O caráter elitista e conservador do G8 tem levado a sociedade civil e diversas partes do mundo a protestar contra as cúpulas e as perspectivas e recomendações adotadas nessas reuniões. Um exemplo foi a realização do chamado “G6B” (Grupo dos 6 Bilhões – referente a número de habitantes da Terra) realizado em junho de 2002, em Calgary, Canadá, como envento paralelo à reunião do G8, em Kananaskis, no mesmo país. O evento do G6B denunciou o caráter fechado e exclusivista da reunião de Kananaskis e foi dedicado a estabelecer um “fórum para gerar e discutir idéias e soluções que promovam atividades econômicas benéficas a pessoas que vivem em todas as partes do mundo, mas também reflitam o pleno respeito aos diretos humanos e ao meio ambiente” (www.g6bpeoplessummit.org – consultado em 29jun 2002).


Repúdio ao G8
Assim sendo, por ser uma prática conservadora, alheia à promoção dos direitos humanos e da sustentabilidade ambiental e social do desenvolvimento, por ser também completamente informal, elitista, sem transparência e por não concordar em assumir a obrigação de prestar contas à sociedade, desenvolvendo atividades com exclusão de países em desenvolvimento e da sociedade civil, a Rede Brasil repudia a existência desse clube de amigos ricos, que decidem em beneficio próprio, porém com conseqüências suportadas em todo o mundo.

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