Desde que militantes da Via Campesina ocuparam as instalações do horto florestal da empresa Aracruz Celulose, no Rio Grande do Sul, no último dia 08 de março, a imprensa vem noticiando o fato de uma forma parcial e também promovendo a criminalização dos movimentos sociais. A revista Veja desta semana noticiou o acontecimento, levando a crer que a ocupação do Movimento das Mulheres Camponesas (MMC) reproduziu um pouco da bestialidade da inquisição e do regime nazista de Adolf Hitler, ao invadir e destruir um centro de pesquisas da companhia Aracruz. A Veja informou que a Aracruz Celulose faz parte do grupo de excelência no mundo empresarial brasileiro. É líder mundial na produção de celulose de eucalipto, matéria-prima para a fabricação de papel, e, em 2005, exportou 830 milhões de dólares, trazendo importantes divisas para a economia nacional.
E o outro lado da história? Não, não estava noticiado em lugar algum. É notório que a imprensa é fundamental para a formação da opinião pública. Como fica então os milhares de leitores que acompanham os fatos e recebem somente uma parte da informação?
A Aracruz está há 30 anos no Brasil exportando celulose. Seus proprietários com maior número de ações são: a empresa norueguesa Lorenz, o Banco Safra, o grupo Votorantim e a Souza Cruz. A coroa sueca tinha ações, mas vendeu em janeiro deste ano diante das pressões de grupos de direitos humanos, que apontaram a participação ativa da Aracruz, ao oferecer toda infra-estrutura à operação da Polícia Federal que expulsou com violência, os índios Tupiniquins e Guaranis de suas aldeias, no Espírito Santo. Após o fato, a corregedoria da Polícia Federal e o Ministério Público Federal estão investigando o envolvimento da empresa nesta ação.
O que não foi informado é que a Aracruz invadiu terras indígenas, quilombolas e de camponeses. É responsável ainda pela destruição de 50 mil hectares de florestas de mata atlântica nas décadas de 60 e 70; pela implantação de extensas áreas de monoculturas, desrespeitando a legislação ambiental e pela aplicação de agrotóxicos que contaminam as fontes de água das comunidades.
Em março de 2005, uma ação foi impetrada pela Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional (FASE) na Justiça Federal de Vitória, Espírito Santo, denunciando o não-cumprimento pela Aracruz Celulose da exigência legal de realizar Estudos de Impacto Ambiental. A Aracruz está sendo processada também pela poluição e desvio ilegal de rios que abastecem comunidades, apenas para garantir água suficiente para suas fábricas de celulose em Barra do Riacho (ES), consumindo uma quantidade que equivale hoje ao consumo de uma cidade de 2,5 milhões de habitantes. A empresa Aracruz Celulose já foi relatada e denunciada internacionalmente à Corte Interamericana de Direitos Humanos da Organização dos Estados Americanos (OEA), na cidade de Washington, em 2002.
Segundo pesquisa da ONG Koinonia, Indígenas e quilombolas do norte do Estado do Espirito Santo venderam suas terras diante da promessa da Aracruz de oferecer trabalho e renda, sem saber que isso não seria possível, já que a indústria é altamente mecanizada e necessitava, portanto, de mão-de-obra qualificada, o que praticamente inexiste nessa região onde a escolaridade da população é baixa. Os poucos moradores da região que resistiram à entrada da Aracruz permaneceram ilhados pelos eucaliptos da empresa e hoje sobrevivem do plantio de mandioca para fazer farinha, e da cana para produzir melado.
De acordo com a mesma pesquisa, muitos habitantes da região tomaram como ofício, carregar tonéis de agrotóxicos para serem aplicados nos cultivos de eucalipto. São jogados, em média, cerca de 250 mil litros de herbicidas por dia nas plantações de eucalipto. Um dos venenos utilizados é o Tordon, que é ilegal por ser comprovadamente cancerígeno e causador de doenças genéticas. Mesmo assim, a substância é utilizada em todos os municípios onde o eucalipto é plantado. O Tordon foi o agente-laranja, usado pelos Estados Unidos na guerra química contra o Vietnã. Na ocasião, foram despejados 35 milhões de litros do produto, cujos efeitos até hoje são sentidos pelos vietnamitas.
A notícia é contada da forma que interessa a elite econômica. A imprensa brasileira é ruim e parcial, salvo raras exceções. Entre distorções e omissões a pergunta é: Quem são as vítimas? Somos todos nós.
Daniela de Lima Pinto
Jornalista da Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais

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