Antes mesmo de terminar, a IV Cúpula das Américas já significava
um retumbante fracasso para o presidente dos EUA, George Bush, o único a lutar para fazer do evento a plataforma para o relançamento das discussões sobre a Área de Livre Comércio das Américas (Alca). Mesmo que a declaracão final do encontro, que não foi concluída no dia de fechamento da Cúpula, no sábado, 5, inclua o tal parágrafo em que os EUA defendiam a Alca, em contradição ao tema da Cúpula – empregos e democracia –, a proposta estadunidense já está seriamente abalada. Não somente porque a ampla maioria dos governos da região relutam em aceitar a idéia, mas, também, por várias outras circunstâncias que colocam a Alca em franca defensiva.
De seu lado, os movimentos sociais latinoamericanos têm avançado muito na elaboração de propostas alternativas e na resistência à Alca - inclusive com o apoio de importantes setores do empresariado da região. Já os governos de Cuba, da Venezuela e de vários países insulares do Caribe vêm dando continuidade à Alternativa Bolivariana para as Américas, a Alba, que levou 18 mil médicos cubanos a trabalharem na região de Caracas para pagar com serviços sociais o petróleo que a Venezuela envia regularmente para Havana. Outros países da região têm fornecido aos venezuelanos alimentos em troca de petróleo, num de integração que pode acabar sendo reproduzido com outras nações, como o Uruguai e a Argentina.
E, por fim, contribui decisivamente na perda do vigor da Alca a situação política interna dos Estados Unidos. Bush vive um nítido processo de enfraquecimento político (pesquisa do instituto Ipsos aponta que metade dos estadunidenses apoiariam seu impedimento), após sucessivos erros estratégicos de seu governo. Ele rejeitou o Protocolo de Quioto, jogou mais de cem mil soldados americanos na aventura sem saída do Afeganistão e Iraque, não deu ajuda imediata aos habitantes de Nova Orleãs após o Katrina e teve casos de perjúrio e no primeiro escalão da Casa Branca.
Contudo, não se pode dar a Alca como favas contadas. Não somente porque os EUA possuem um enorme arsenal militar, político e econômico, o que permitiria recuperar a ofensiva a qualquer momento, mas, também, porque há uma espécie de segunda estratégia para construir uma área de livre comércio nas Américas.
Ela envolve a assinatura de tratados subregionais de comércio
livre com a America Central, o Cafta, e a abertura de negociações com os países andinos para implantar ali o Afta, além de tratados bilateriais que vêm sendo negociados com o Chile e o Paraguai. Em paralelo, há, ainda, o IIRSA, a Iniciativa de Integração da Infra-Estrutura da Região Sul-Americana, coordenada técnica e economicamente pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), que recentemente escolheu um presidente simpatissíssimo aos EUA.
Quanto à IIRSA, brigam para financiá-la as agencias multilaterais Corporação Andina de Fomento, específica para os países andinos e a Fonplata, voltada para a região da bacia do Rio da Prata. Também entra nesse jogo, com decisão e cofres abarrotados os, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social, o Bndes, que, entre outros projetos, financia a Andrade Gutierrez na construção de uma estrada no Peru, na qual a empreiteira sofre acusações de superfaturamento, e planeja colocar nos projetos da IIRSA pelo menos 10 bilhões de dólares nos próximos 10 anos.
A IIRSA tem dois objetivos estratégicos que, se colocados em
prática, criariam na América do Sul todas as condições normativas e físicas para o exercício do livre comércio e a transformação da região em provedora mundial de mercadorias agrícolas e semi-manufaturados de baixo valor agregado e de alto impacto sócio-ambiental

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