O mensalão de Palocci&Meirelles
Carlos Sergio Tautz
Multiplique por mil todas as cifras que emergiram no mensalão das cuecas e comprove: o número sequer chega perto dos bilhões que se esvaem no pagamento de dívidas interna e externa que não resistiriam a uma auditoria minimamente isenta. Some outras dezenas de bilhões que deixam de ser investidos em políticas públicas necessárias para resgatar 505 anos de exclusão dos pobres e tem-se como resultado a política econômica ultrarestritiva operada por Palocci&Meirelles.
Essa opção pelo não-desenvolvimento é o verdadeiro escândalo nacional que, coisa de profissionais, vai passando relativamente despercebido. Ele, sim, merece todas as CPIs e investigações da imprensa, do Ministério Público e de quem mais desejasse ver o Brasil crescer, a exemplo do que vêm fazendo vários países com economias equivalentes à nossa.
Ao manterem uma taxa de juros irreal, que não reflete as condições objetivas da economia nem a necessidade de o País se desenvolver, o ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central inviabilizam qualquer estratégia de crescimento nacional. Essa posição brasileira pela estagnação fica ainda mais perversa quando se verifica que Argentina, Venezuela, Rússia, China e outros países têm feito caminho inverso. Aproveitam o bom momento da economia internacional, lixam-se para os dogmas do mercado financeiro e alcançam sucessivos índices altos de crescimento, sempre superiores a 6%, em média.
Palocci& Meirelles, porém, comemoraram ontem o provável aumento de 3,4% no Produto Interno Bruto em 2005 – taxa inferior até à da nossa América Latina. Apesar de elogiados pelos principais colunistas, os dois precisam ser responsabilizados por esse crescimento pífio do PIB. Eles são ampla maioria no Conselho Monetário Nacional, que define a política de juros estratosféricos, e contam ainda com a complacência do terceiro integrante do CMN – Conselho, aliás, que nem durante a ditadura teve um número de membros tão reduzido. O assessor de luxo da dupla dinâmica é o ministro do Planejamento, que de tão importante para a República, raramente aparece no noticiário.
Sem uma estratégia de desenvolvimento nacional, a democracia com justiça social, a soberania e o sistema republicano - tripé que caracteriza Nações plenas - não passam de farsas e aquele resgate das dívidas históricas, outra promessa não cumprida pelo presidente Lula, fica eternamente para as calendas. Nesse ambiente de salve-se quem puder diário, vicejam as condições para a corrupção atingir até vestais de outrora.
Em verdade, o Ministro e o presidente do BC apenas repetem uma lógica que há séculos mantém o Brasil como a grande semi-Nação que possui instituições e recursos, mas que pouco gera benefícios e direitos para a maioria do seu próprio povo, em especial para os pretos e os pobres.
Quando o País ousou se desenvolver, acionou o sinal vermelho no centro do sistema capitalista que, alarmado, reagiu. Vargas possibilitou a criação de Petrobras, Vale, Eletrobras, CSN e Bndes, e Jango planejava taxar o capital externo. Ambos foram derrubados com a colaboração de interesses externos – no caso de Jango, com direito a milhares de fuzileiros dos EUA na costa brasileira, prontos a intervir.
Depois, o centro do sistema perenizou, a partir da ditadura pós-Jango, um sistema de drenagem de recursos nacionais que inviabilizou o desenvolvimento. Para isso, recrutou gente inescrupulosa que emergiu na oposição fácil ao regime cruel, corrupto e moribundo dos generais e permitiu-lhes operar, até hoje, o não-desenvolvimento como política pública.
Esse anti-desenvolvimentismo também cria uma situação perigosa para o Brasil, porque estamos na periferia do sistema, mas temos potenciais enormes que, uma vez transformados em realidade, ameaçam a hegemonia do centro. E este, sempre que cutucado, manifesta-se como qualquer império.
Foi o que aconteceu, amenamente, em meados de julho, quando o mensalão das cuecas fragilizou politicamente o governo. Deu-se então a extemporânea visita-relâmpago do chefe do Tesouro dos EUA para afirmar que Palocci “está no caminho certo”- há que se notar a sutileza da afirmação: o Ministro vai bem, ressaltou John Snow. Já o País...
Esse não-desenvolvimento está em permanente processo de aprimoramento. Não deu certo na cleptopresidência de Collor, mas ganhou cientificidade e refinamento na venda em massa de estatais estratégicas, à moda Consenso de Washington, perpetrada por FHC, que institucionalizou o indefensável: a alienação do patrimônio público com apoio do próprio Estado, através do Bndes, que foi desviado da sua missão de financiar o desenvolvimento econômico e social do País.
Agora, no governo transgênico de Lula, Palocci&Meirelles, quando emerge o valerioduto, é possível perceber o alcance daquela tara privatista. Ela colocou em patamares superiores a confusão entre o privado e o que deveria ser público, aperfeiçoando o patrimonialismo brasileiro. De quebra, expôs a luta surda pelo controle das rentabilíssimas empresas de telecomunicações, privatizadas em operações que envolveram o subterrâneo e onipresente Daniel Dantas com o tucanato e o recém-nascido petismo de resultados.
Para concluir uma Nação voltada para 180 milhões de brasileiros, precisamos de estratégias de desenvolvimento com democratização massiva de direitos. Ou se tem coragem para fazer isso imediatamente, em toda sua amplitude e radicalidade, ou continuaremos sendo a meia Nação em que os mensalões caricatos se repetem para desviar a atenção da verdadeira sangria dos recursos nacionais.
Carlos Sergio Tautz é jornalista e pesquisador do Ibase – Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas

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