Polícia espanca manifestantes contrários ao BID em Fortaleza.:

INFORME No. 4 ( 11/03/2002 )
               
     
Policiais do Batalhão de Choque da Polícia Militar avançaram às 12h30min de hoje(segunda-feira, 11.03.2002) a golpes de cassetete, tiros com balas de borracha e com bombas de gás lacrimogênio, contra uma multidão desarmada de dois mil manifestantes contrários às ações do Banco Interamericano de Desenvolvimento no Brasil(BID),concentrados na praça Cristo Redentor no centro da cidade de Fortaleza, no Ceará. O número de feridos ainda não tinha sido levantado até o final da tarde pelas lideranças da assessoria jurídica da Rede Brasil sobre as Instituições Financeiras Multilaterais, que pretendem questionar judicialmente a ação policial.

Foi ignorada a recomendação do Procurador da República, Alessandro Wilckson Cabral Sales, ao secretário cearense de Segurança Pública, general Cândido Vargas, de respeito aos direitos constitucionais de ir e vir, de manifestação, de livre expressão e de integridade física da população. O presidente Fernando Henrique Cardoso estava participando das atividades da 43ª Reunião Anual de Governadores do BID na sede do Sebrae, a uma distância de cerca de um quilômetro do local.

A passeata com mais de dois mil participantes de organizações não-governamentais, partidos políticos, sindicatos, movimentos de trabalhadores rurais e estudantes partiu às 10h20min de uma concentração na praça do jornal O Povo, percorrendo cerca de três quilômetros pelas avenidas Aguanambi e Dom Manuel até a praça Cristo Redentor, onde foi barrada na esquina com a Monsenhor Taborda, defronte ao Centro Cultural Dragão do Mar pelos policiais do Batalhão de Choque, munidos de escudos e cassetetes.
Policiais militares a cavalo, de moto e a pé completavam o cerco em torno da multidão, enquanto um helicóptero sobrevoava a manifestação filmando as mobilizações. Um clima de guerra semelhante aos de ações policiais dos tempos do regime da ditadura militar no Brasil se instalou na praça.

Uma cópia da recomendação do Procurador da República foi apresentada pelas lideranças dos manifestantes ao comando da operação. “Estamos aqui até
defendendo idéias que discordamos, obedecendo ordens. Não temos autoridade
para cumprir a decisão da Procuradoria da República, pois deve ser apresentada ao Comando Maior da Polícia Militar”, explicou o comandante da operação, tenente coronel Antônio Roberto Pereira. Os carros de som foram usados como palanque para discursos de lideranças dos movimentos sociais, enquanto se desenrolavam tentativas de negociação de passagem. Flores foram entregues por manifestantes aos policiais, que em alguns casos respondiam com pequenas agressões, como tapas ou pequenos empurrões nas mãos doadoras.

O coordenador do Movimento de Atingidos pelas Barragens, Hélio Mecca,
lamentou a barreira policial em seu discurso, “por agredir ao direito constitucional de livre manifestação”. Por sua vez, o presidente da União Nacional dos Estudantes, Felipe Maia, destacou em sua intervenção: “Se podemos resistir à ditadura, podemos resistir a essa barreira policial imposta por ela”. A concentração estava se dispersando às 12h30min, quando a polícia começou a avançar sobre os manifestantes, espancando com cacetetes, lançando balas de borracha e bombas de gás lacrimogênio. Houve uma tentativa inicial de resistência, com o lançamento de garrafas de vidro e cabos de bandeiras contra os militares, mas as lideranças ordenaram a retirada para evitar que o conflito se agravasse.
 
       

Um grupo do PSTU, liderado pelo pré-candidato do partido à Presidência da
República, Zé Maria, tinha se afastado a uma quadra da concentração e retornava, quando os policiais avançaram. Policiais a cavalo e a pé cercaram o grupo do partido num canto da praça. O comandante desta ação não se identificou para a imprensa, mas exigia “um estandarte” que teria sido jogado contra um oficial. O deputado estadual cearense do PCdoB, Chico Lopes, tentou intermediar as negociações, mas os militantes decidiram abandonar o local e ir para a praça da Sé, distante cerca de dois quilômetros dali.

A coordenadora da Rede Brasil sobre as Instituições Financeiras Multilaterais, Magnólia Said, repudiou a ação militar contra os participantes da passeata, desrespeitando recomendação do Procurador da República de respeito aos direitos constitucionais dos cidadãos. “Isso demonstra que a administração do governador Tasso Jereissatti não respeita qualquer autoridade, nem admite que ninguém pense diferente e age de maneira truculenta e traiçoeira”, criticou.

O presidente regional da CUT no Ceará, Roque Mello, responsabilizou o secretário de Segurança do estado pelo uso do aparato policial. “Houve um total abuso do poder, num desrespeito ao direito à livre manifestação”, disse Mello.

O Movimento dos Atingidos por barragens fará às 8 horas de amanhã, dia 12, terça-feira um ato público para o “Debate sobre a Política Energética” no Sindicato dos Trabalhadores na Construção Civil em Fortaleza. Após o conflito desta segunda-feira, as lideranças tentam tomar medidas para preservar a integridade física dos manifestantes.


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