Carta à população mineira e à imprensa:
da Organização do I Encontro dos Movimentos Sociais Mineiros que ocorrerá de 01 a 04 de abril de 2006 em Belo Horizonte

Estamos estarrecidos e indignados com o comportamento autoritário e antidemocrático com que o governo estadual e municipal vem tratando os movimentos sociais. Exatamente os governos que tem a responsabilidade de garantir o direito constitucional da livre manifestação e organização, têm cerceado este direito.
A articulação de entidades da sociedade civil e movimentos sociais brasileiros, desde janeiro vem se organizando para fazer o Encontro por um Projeto Popular para o Brasil e contra o caráter nefasto do Banco Interamericano de Desenvolvimento e das Instituições Financeiras Multilaterais. São mais de 3.000 participantes vindos de todas regiões de Minas e de Belo Horizonte. Procuramos organizar um evento que pudesse, de um lado, fazer a formação através de debates, painéis, mesas redondas, com temas como: as Instituições Financeiras Multilaterais, a Transposição do Rio São Francisco, a Agroecologia o Modelo Energético e pela Redução da Tarifas de Energia Elétrica, que pudessem contribuir para a elaboração de Um Projeto Popular para o Brasil. De outro lado, fazer manifestações que pudessem dar visibilidade aos temas em debate. Teremos assim, a Marcha de Abertura, Atos Públicos durante todo o dia 3 e para encerrar, no dia 4, o Tribunal Mineiro dos Crimes do Latifúndio.
Desde o início, contatamos a PBH, o Governo do Estado e a UFMG para a liberação de espaços para o evento. Solicitamos da PBH Escolas Municipais, Espaço Miguilim e Praça da Estação. E da UFMG o Centro Cultural e a Escola de Engenharia todos estes, espaços historicamente concedidos a sociedade para realizar seus encontros. Após a primeira negativa da PBH, não liberando nenhum dos espaços solicitados, adequamos nossa atividade e solicitamos o quarteirão fechado da Guaicurus. Solicitamos também, do Governo do Estado, as Escolas. E, para nosso espanto, nos últimos dias, todos os pedidos foram negados.
O mais chocante é o contraste. De um lado, tudo para o BID mesmo afetando toda a vida da população, cerceando a liberdade e a circulação, maquiando a cidade, alardeando gastos de 60 milhões pela PBH e 150 milhões pelo Estado. Isto, sem computar os milhões gastos com publicidade para convencer a população de que o BID é uma dádiva para os mineiros. Uma propaganda que induz a subserviência ao grande capital internacional, sugerindo que o povo chegue ao cúmulo de carregar um tapete vermelho para que os representantes do BID possam pisar, buscando reproduzir a subserviência dos governos. De outro lado, a negativa total para os movimentos impedidos de usar até o quarteirão fechado, buscando inviabilizar a divulgação de um pensamento diferente. Uma clara imposição de um pensamento único.
Esta é uma situação absurda em que o Estado ao invés de defender os interesses da sociedade, coloca todas as suas instituições, a serviço dos interesses do grande capital. O evento organizado pelos Movimentos Sociais de Minas Gerais tem como objetivo denunciar aos mineiros e ao mundo, os crimes cometidos contra os países subdesenvolvidos e em desenvolvimento provocada pelo modelo imposto através das instituições financeiras multilaterais, desenvolvido nos anos 80 quando condicionam os investimentos do BIRD e BID à realização de ajustes estruturais, tais como a abertura comercial e as privatizações como agora se busca fazer com as águas. Que resultaram no aumento da desigualdade social e nos pífios crescimentos conseguidos pelo Brasil na última década.
A política econômica tem provocado cortes inadmissíveis nas despesas públicas essenciais para a sobrevivência da maioria da população, ao mesmo tempo em que tem elevado os recursos destinados ao pagamento das dívidas – interna e externa – beneficiando diretamente banqueiros e rentistas.
A reunião do BID no Brasil com os chefes de Estado deveria respeitar um princípio democrático construído a duras penas neste país: o da organização social. No Brasil existem inúmeras organizações no meio estudantil, nos movimentos sociais de luta pela terra, no meio sindical, ambientalista e nas igrejas que se constituem no bem maior da democracia. Qualquer projeto para o desenvolvimento econômico ou social precisa respeitar a participação da população.

Por Respeito a Livre Manifestação e a Liberdade de Pensamento – Fora BID

Pela Redução da Tarifa de Energia Elétrica - FORA BID

Por Um Projeto Popular para o Brasil – Fora BID

Assinam esta carta um conjunto extremamente amplo e diverso de organizações que manifestam os interesses da grande maioria da sociedade excluída do desenvolvimento proposto pelo BID, BIRD e BM. Exigimos a garantia de nossos direitos e o respeito às diferenças.

Fórum das Pastorais Sociais/CNBB
Via Campesina
Central Única dos Trabalhadores – CUT
Coordenação Nacional de Lutas – Conlutas
Articulação Mineira de Agroecologia – AMA
Comitê Mineiro do Fórum Social Mundial
Fórum Mineiro de Economia Popular Solidária- FMEPS
Articulação do Semi-árido Mineiro – ASA
Fórum Mineiro de Segurança Alimentar – FMSAN
Fórum Mineiro de Reforma Urbana