As Assembléias anuais do BID se constituem num forum de discussão entre os representantes dos países-membros, a maioria deles Ministros da Fazenda, presidentes de bancos centrais e assessores. Tem como convidados representantes de outras instituições financeiras multilaterais, agências de desenvolvimento e bancos comerciais e de investimento. Nessa ocasião eles aproveitam para fechar e/ou divulgar acordos, discutir investimentos específicos e prioridades políticas.
A cidade foi cuidadosa e artificialmente preparada para receber os representantes de um dos organismos financeiros multilaterais que mais tem investido nas privatizações, no livre mercado, na ampliação do poder das empresas privadas e no financiamento de mega-projetos de infra-estrutura, sem considerar seus impactos sobre as populações pobres. Durante oito dias, não se viu crianças e idosos pedintes nas esquinas e sinais; desapareceram como que por encanto; a livre circulação das pessoas foi restringida; exército, polícia militar e civil espalhavam-se pelas ruas e a propaganda invadiu jornais e telas de TV.
Os movimentos sociais foram às ruas protestar contra os governos federal, estadual e municipal que aplicam as políticas definidas pelo BID e a reação àquela manifestação pacífica foi uma violenta repressão.
Nas reuniões subsequentes (Milão-2003; Lima-2004; Okinawa,Japão-2005) da mesma forma, um forte aparato repressivo sufocou as manifestações de rua.
Em 2006, a Assembléia de Governadores volta para o Brasil, agora em Belo Horizonte. Desta vez, no tempo de Lula, de Pimentel e de Aécio Neves, os dois primeiros do PT; o último do PSDB.
Nós, que vivenciamos os dois momentos, ficamos perplexos com as semelhanças de métodos e atitudes.
É difícil imaginar que num contexto de tanta apatia, acomodação e capitulação de várias organizações da sociedade civil, uma enorme quantidade de movimentos viesse atender ao chamado da Via Campesina para discutir os termos de um projeto popular para o Brasil em um evento paralelo à Assembléia de Governadores, se solidarizar com a luta do MAB contra as hidrelétricas e repudiar a ação do BID e das outras instituições financeiras multilaterais que atuam no país.
Durante 2 dias, um conjunto amplo e diverso de pessoas, participou de atividades na Praça da Assembléia Legislativa de Belo Horizonte sem estrutura, mas com uma disposiçaõ enorme para a reflexão chegando, ao final, com a produção de um documento belo e radical, expressão das identidades e das necessidades dos movimentos alí presentes, que seria entregue aos representantes dos países na Assembléia, em especial, ao governo brasileiro.
*O Banco Interamericano de Desenvolvimento-BID é uma instituição financeira multilateral, que realiza empréstimos no continente americano para governos e empresas privadas. O BID é o organismo que mais financia projetos no país. O Brasil é o 2º país com maior poder de voto, tendo,portanto, poder de controlar a atuação do banco.
Governo e Prefeitura não tiveram olhos nem ouvidos para ver e escutar sobre as penosas condições em que vivem milhões de famílias no Estado, impactadas pelas políticas resultantes de um acordo entre governos e os bancos multilaterais.
O MAB, reafirmou as denúncias que tem feito sobre a situação das famílias atingidas pelas grandes barragens, o aumento do preço da energia, a interferência de corporações internacionais e a ausência de políticas de proteção social para as famílias atingidas pelas barragens. O MST denunciou o endividamento dos/as agricultores/as familiares enganados pela chamada Reforma Agrária de Mercado, através do Cédula da terra e do Crédito Fundiário, além da ausência de terra e crédito para produzir. Todos esses projetos e programas têm sido realizados através de empréstimos milionários do BID, o que tem significado um aumento cada vez maior da dívida pública do Estado brasileiro.
A estes movimentos, se juntaram sindicatos, foruns. associações, pastorais e movimentos estudantis, para denunciar o papel do BID como um dos instrumentos de intervenção das políticas imperialistas do governo americano.
Há tempos eu me sentia carente daquele tipo de emoção; há tempos eu pelejava para que algo enchesse meu coração de energia e trouxesse de volta a minha crença de que multidão nas ruas resoluta e consciente de sua tarefa revolucionária nesse mundo, é capaz de fazer florescer os instrumentos capazes de realizar uma nação independente e justa para com sua população.
Aproximadamente 500 pessoas estavam presentes no Encontro paralelo. Todas expressando curiosidade e seriedade com o que escutavam. E eu alí, exposta, convidada pela coordenação do 1º Encontro dos Movimentos Sociais Mineiros para falar sobre “As políticas neoliberais para o Brasil e América Latina:FMI,BIRD e BID”, cheia de emocionalidades, deixei de lado o que havia escrito e me deixei levar pela cumplicidade estabelecida naqueles olhares.
As pessoas tinham sede de informação; queriam explicações menos sofisticadas sobre como se processa a lógica neoliberal nas suas vidas; queriam entender por que o governo popular que elas elegeram não tem compromisso com o resgate da imensa dívida social e ambiental nesse país. As pessoas queriam, enfim, mais elementos para entender se é pacto ou subordinação, o que orienta a relação do governo Lula com as Instituições Financeiras Multilaterais. Nada poderia ter sido mais gratificante. Três mulheres guerreiras também estiveram comigo contribuindo com o Encontro: Sandra Quintela, Maria Lúcia Fatorelli e Fabrina Furtado.
Enquanto toda a situação do contexto era compartilhada, do outro lado operava-se uma grande estratégia de guerra para ferir a democracia, o direito de livre organização e manifestação de pessoas, o direito de ir e vir e a integridade física de homens, mulheres e adolescentes.
O ódio de classe se expressou na ordem de comando dada ao aparato militar, para reprimir violentamente a manifestação, para humilhar e machucar individualmente as pessoas. Se expressou ainda, na fala cínica e de desprezo com que o Prefeito do PT se pronunciou sobre os episódios.
Tenho a impressão de que foram a indignação e a força acumulada nos dias anteriores à violência policial que fez com que o povo resistisse com tanta garra e coragem. No dia seguinte, a Marcha saiu outra vez. Linda, unida e vitoriosa. Em nós, suas apoiadoras, a certeza de que não podemos ficar de fora, assistindo. Temos que fazer uma escolha; ficarmos juntos de quem é cotidianamente espoliado de direitos.
Haverá um tempo em que os poderosos de hoje, aqueles que se escondem sob o manto do luxo e da proteção militar, serão exemplarmente, de alguma forma, punidos pela ação da justiça construída nas ruas.
Fortaleza, 06 de abril de 2006
Magnólia Azevedo Said - Diretora-Presidente do Esplar e membro da Rede Brasil

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