Washington
recusa ser chamado de pessimista quando critica a Convenção
da Diversidade Biológica (CDB). Em debate até sexta
(31), ela é paquidérmica na velocidade de resolução
de problemas urgentes, entre os quais o acesso desregrado ao
patrimônio genético da Terra e a extinção
maciça de espécies, por força das mudanças
no clima do planeta. Resolver esses problemas, lembra Washington,
deveria ser tarefa prioritária de todos os governos e de todas
as sociedades - e não dos analistas que, como ele, denunciam o
ímpeto de cágado, demonstrado por convescotes
transnacionais como esta reunião dos países membros da
CDB.
Os
pessimistas, como Washington alerta, não somos nós. A
responsabilidade pela situação pela qual vem passando o
planeta é de muita gente, menos do repórter que escreve
sobre ela. Aliás, o mesmo foi observado recentemente pelo
português José Saramago, Nobel de literatura, que não
admite ser chamado de pessimista. Péssima é a situação
do mundo, diz.
Péssimo
também é o sistema da ONU para resolver problemas
globais, o que abre espaço para o aparecimento de guerras
preventivas, alianças globais contra o terrorismo e outras
propostas amargedônnicas. Precisamos ter coragem de propor
novas regras para refazer o sistema produtivo global, que hoje extrai
da Terra um volume de recursos naturais superior em 20% à sua
capacidade de reposição, e Convenções
internacionais deveriam ser um espaço importante para pensar
alternativas a modelos de produção que estão
levando nossa sociedade à morte.
Ou
fazemos isso, ou não há saída, porque toda
estratégia de enfrentamento dos problemas globais está
condicionada por critérios que nos levam de volta ao impasse -
e dele não sairemos se não formos corajosos para
imaginar outros processos de decisão.
Tome-se
como exemplo de alternativa a proposta, feita nesta COP8 de Curitiba,
de participação dos povos indígenas na
elaboração dos critérios da CDB para regular o
acesso a recursos genéticos e a posterior repartição
dos benefícios daí oriundos. Após séculos
mantendo o equilíbrio dos biomas com o seu modo equilibrado de
vida, uma parcela do movimento indígena internacional quer
agora tirar proveito dos lucros auferidos com o uso da diversidade
biológica que eles ajudaram a manter.
Deixo
para os indígenas e os antropólogos a discussão
sobre se o pagamento é compatível com o uso coletivo
que várias civilizações tradicionais sempre
fizeram dos recursos naturais. Questiono é se esse sistema
decisório, ao qual os indígenas querem ter acesso, é
capaz de assimilar demandas como as deles. Se realmente forem
incorporados, os indígenas serão ampla minoria em
grupos de trabalho, órgãos consultivos e que tais, onde
são os lóbies poderosos quem dá as cartas.
A
mera incorporação de indígenas a este processo
não é suficiente para garantir que suas visões
de mundo não-mercantis sejam respeitadas. As regras que
definem as estratégias foram pensadas para nos levar a
objetivos pré-determinados - e alheios interesses como o dos
indígenas. Porém, se por um lado essa demanda indígena
por participação evidencia o impasse das negociações
globais, outro exemplo indígena mostra soluções
alternativas.
Em
Cuzco, no Peru, uma comunidade indígena vem há séculos
desenvolvendo o Parque das Batatas. Lá, são cultivadas
cerca de mil variedades de batata, entre as quatro mil existentes no
país inteiro. Isso ajuda a manter a diversidade tão
necessária para a saúde ecológica deste vegetal,
que é a base da alimentação de vários
povos andinos, centro-americanos, europeus e asiáticos.
No
Parque das Batatas há um sistema de repartição
dos benefícios oriundos do uso sustentável, justo e
ecológico da diversidade biológica. Mas, em vez de a
CDB utilizar exemplos como esse para orientar suas discussões,
prefere levar em conta somente propostas elaboradas por grandes
conglomerados de biotecnologia, que as apresentam através das
delegações dos seus países-sede. É o caso
da Suíça, que ora defende nesta COP as sementes
estéreis (que não germinam e precisam ser adquiridas
todos os anos) da multinacional Delta Pyne.
Argumentam
os negociadores que sistemas como o do Parque das Batatas não
seriam “científicos”, ao passo que aquele da Delta Pyne,
também chamado de Exterminador ou de tecnologia de uso
restrito, cumpriria essa exigência e estaria habilitado a
entrar no debate oficial. É assim que as regras estabelecidas
determinam o tipo de solução que se quer encontrar.
Fora desse sistema, não haveria alternativas.
Recusam
esses negociadores a perceber que essa ciência que defendem
resulta em monoculturas globais de grãos, de árvores,
de bois, de frangos, de porcos e outras, todas dominadas por meia
dúzia de conglomerados financeiro-industriais. Elas
uniformizam em escala global o padrão de alimentação
que lhe garante lucro e elimina a variedade cultural expressa nas
diversas formas de preparar a comida, além de assassinar a
variação genética que desde sempre é uma
barreira natural à propagação de microorganismos
perigosos, como este da gripe aviária, que viaja o mundo na
velocidade de um email.
Uma
solução alternativa para alguns desses problemas seria
a adoção de uma medida que começa a ser gestada
por grupos indígenas. Eles devem apresentar à CDB uma
proposta para dar ao seu conhecimento tradicional o mesmo valor e
status que o conhecimento científico possui. O alcance dessa
proposta é inestimável, dada a sua radicalidade. Ou
ações como essa são tomadas de forma planejada e
continuada, ou a situação continar á péssima.
E Washington e Saramago continuarão sem motivos para serem
“otimistas”.

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