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Relevância da integração latino-americana não esconde contradições - Carta Maior:
Membros
de governos e movimentos sociais defendem processo a partir do
interesse dos povos latino-americanos. Na prática, porém,
obras de infra-estrutura voltadas para exportação
causam polêmica. Desafio maior é garantir visão
integral de integração para enfrentar o
imperialismo.
Maurício
Hashizume - Carta Maior
CARACAS
- Restam pouquíssimas dúvidas de que a proposta de
integração latino-americana consiste em sonho dos mais
recorrentes para qualquer participante do Fórum Social
Mundial. O que causa desassossego em muitos, no entanto, é a
forma como se dará iniciativa tão anunciada
quanto complexa. De
sua parte, o ministro da Economia Popular da Venezuela, Elias
Jaua,aponta os três passos necessários para garantir uma
integração a partir do interesse dos povos: a
construção de um pensamento comum a respeito do tema; a
conquista do poder por mais correntes populares que, segundo ele, "a
cada dia ganham mais espaço no nosso continente" e a
eliminação da dependência financeira -
especialmente do Fundo Monetário Internacional (FMI) e do
Banco Mundial (Bird) - para recuperar as autonomias comercial e
econômica. Com respeito a este último item, ele reforça
a proposta do Banco do Sul. Cerca de 50% do acúmulo monetário
dos países da América Latina
estão depositados no exterior. Para o ministro, portanto,
vontade política seria o suficiente para garantir os
investimentos e as garantias necessárias para o processo de
integração. Em
seu campo específico de atuação, Jaua destaca a
assinatura de um acordo com cooperativas de couro da Argentina. O
governo de Chávez abrirá uma linha de crédito de
US$ 3 milhões a partir de fevereiro em troca de matéria-prima
com preço abaixo do custo do mercado internacional para
cooperativas venezuelanas de calçados. Ele
espera ainda que a integração que move o conjunto de
governantes formado por Hugo Chávez, Luiz Inácio Lula
da Silva (Brasil), Néstor Kirchner (Argentina) e Tabaré
Vasquez (Uruguai) seja redefinida no marco do Mercosul. "Se o
bloco continuar como é hoje - um acordo aduaneiro e comercial
-, a Venezuela efetivamente sairá prejudicada. Mas
estamos seguros
e apostamos nesse processo. Como foi declarado pelos presidentes Lula
e Kirchner em Brasília na semana passada, a estratégia
não é a da competição, mas a da
complementaridade. São bons indícios de que o Mercosul
será outra em médio prazo", afirmou Jaua à
Carta Maior. "Não assumiremos
uma louca corrida para a industrialização para poder
competir comercialmente e disputar com a indústria brasileira.
Temos que encontrar pontos fortes e fracos de cada país para
que a complementaridade determine o êxito do Mercosul". Para
Jean Pierre Leroy, da Rede Brasileira de Justiça Ambiental,
essa complementaridade ainda se mostra um tanto quanto ambígua.
"De um lado, se quer integrar para fazer um bloco regional
frente à globalização e aos grandes blocos
hegemônicos. Mas de outro lado, o principal comércio
da América
Latina não é interno. As relações
comerciais entre Brasil e o Equador, por exemplo, é marginal.
A União Européia tem um comércio intenso entre
os países que a integram. A idéia de complementaridade
é muito mais visível". O
principal foco de críticas da entidade de Leroy e de outros
grupos como o Fórum Brasileiro de ONGs e Movimentos Sociais
para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento (FBOMS), contudo, recai
sobre a Iniciativa para a Integração da Infra-estrutura
Regional Sul-Americana (IIRSA), proposta pelo
governo brasileiro. As obras previstas no projeto, adverte Leroy,
fazem parte de um projeto econômico voltado para a exportação.
"É preciso uma integração, mas de um outro
projeto que contemple os povos excluídos que nunca serão
integrados por esse comércio e esse mercado que não
se interessam
por eles. Continuará a desigualdade profunda. Daí a
enorme diferença entre a nossa proposta e a IIRSA". A
despeito da relevância do debate sobre os modelos de
desenvolvimento em jogo, o hondurenho Rafael Alegria, da Via
Campesina – coalizão internacional de organizadores de
trabalhadores do campo - propõe alianças com governos
aliados a fim de solidificar a união latino-americana.
"Não temos
que ter medo de nos integrar", afirmou, em painel que abordou o
tema. Há pouco mais de dez anos, relembrou Alegria, integração
era assunto apenas de governos, diplomacia, mercado. Conquistas
populares como a formação da Aliança Social
Continental - que reuniu camponeses, indígenas, estudantes,
entidades religiosas, intelectuais, ONGs, entre outros setores - para
lutar contra a Área de Livre Comércio das Américas
e a consolidação do Fórum Social Mundial mudaram
essa história. No
mesmo painel, a brasileira Nalu Faria, da Marcha Mundial das
Mulheres, fez menção à conjuntura favorável
no continente, mas foi bem mais cautelosa que o líder da Via
Campesina. Insistiu na idéia de "visão global e
integral de integração", com vistas a garantir a
participação da diversidade de sujeitos políticos
que questionam aspectos que por muitas vezes não são
reconhecidos. "É preciso reconhecer todas as dimensões
históricas e desconstruir desigualdades e hierarquias",
ressaltou, sublinhando a possível contradição
dentro do processo de integração no que tange
à sustentabilidade ambiental, intimamente vinculada ao padrão
de consumo. "A integração é o instrumento
para fazer avançar a luta contra o imperialismo. E um dos
principais desafios nesse processo é garantir a unidade".
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