Sociedade civil ficou de fora da reunião do BID em Fortaleza - Carta Maior:
A temperatura subiu de 7 a 13 de março na capital cearense, quando ocorreu a 43a Reunião Anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento. Fora do encontro oficial, ONGs, sindicatos, estudantes e movimentos populares organizaram eventos paralelos para protestar contra a instituição multilateral.

Maurício Hashizume - Carta Maior - 17 de março de 2002

A 43ª Reunião Anual do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), realizada de 7 a 13 de março em Fortaleza, foi muito além das críticas do presidente Fernando Henrique Cardoso ao Fundo Monetário Internacional (FMI), das lamúrias por ajuda financeira do ministro da Economia da Argentina e da aprovação de uma linha de crédito de emergência de US$ 6 bilhões para países da América Latina e do Caribe em crise.

O “grandioso” encontro, que contou com a presença de três presidentes – FHC, Gustavo Noboa (Equador) e Alejandro Toledo (Peru) – e 40 ministros da economia de diversos países do mundo, tampouco foi um mero trampolim político para o Ministro do Planejamento, Orçamento e Gestão, Martus Tavares, que deixará o cargo no próximo dia 4. Cearense, ele presidiu a reunião, foi eleito para o posto de diretor do Brasil e de Suriname no BID e assumirá o posto no início de julho. Nomes e cargos à parte, a assembléia anual do banco fez a capital cearense efervescer.

O calor típico do Nordeste brasileiro nesta época do ano recebeu algumas “pitadas” que deixaram o clima ainda mais quente na capital cearense. Foi montado, para a reunião do BID, um aparato de segurança quase sem precedentes em um evento no Brasil. Um feriado (11 de março) foi decretado, aulas na Uece (Universidade Estadual do Ceará) e na Unifor (Universidade de Fortaleza) foram suspensas, trechos de grandes avenidas do centro foram interditados. Nada menos que 3 mil policiais (entre civis e militares) e mais 1,5 mil militares do Exército foram convocados para zelar pela segurança dos participantes do encontro. Foi montado até um cordão de isolamento a 500 metros do Centro de Convenções Édson Queiroz, onde se concentrou a maior parte dos eventos. Até palestrantes sem crachás foram barrados.

Eventos paralelos, fechados à imprensa e promovidos por grandes instituições financeiras nos hotéis de classe espalhados pela orla marítima, também contribuíram para dar um pouquinho mais de molho ao “caldeirão” que se transformou Fortaleza. Duas grandes reuniões foram promovidas pela Merril Lynch e pela Salomon Smith Barney, braço de investimento do Citigroup. Sem contar os eventos patrocinados pelos bancos Santander, BBVA, Unibanco e Bankboston.

Mas o oxigênio - sem o qual não é possível acender o fogo – que alimentou as labaredas em Fortaleza veio das ruas. Organizações Não-Governamentais (ONGs), sindicatos, movimentos populares e estudantes organizaram um evento paralelo, com debates, oficinas e até um julgamento (que condenou o BID), durante a reunião anual da instituição. “Agora as pessoas sabem pelo menos o que é o BID. Muita gente que achava que o BID era só um banco percebeu que a instituição não tem agido bem”, comemora Magnólia Azevedo Said, da coordenação nacional da Rede Brasil sobre instituições financeiras multilaterais, associação formada por ONGs que participou da organização dos protestos e da agenda “não-oficial” em Fortaleza. “Fizemos várias plenárias desde dezembro do ano passado em diferentes lugares do Estado para divulgar as idéias do movimento”.

“Fomos convidados pela organização da reunião anual do BID, mas nos recusamos a participar do encontro. Não há abertura para a participação popular efetiva neste tipo de evento”, afirmou Antônia Ivoneide Melo Silva, da direção estadual (CE) do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, entidade que também participou das manifestações. Poucos representantes da sociedade civil compareceram à reunião com a vice-presidente do BID, Kathleen Burke Dillon, marcada especialmente para estabalecer uma ponte com a população. Segundo Magnólia, "só foram feitos simples relatos no seminário". "O modelo da relação da instituição com o povo comum está falidoe eles próprios reconhecem isso. Todo o jogo que o BID vem fazendo de mostrar que tem o apoio da sociedade foi desmascarado”.

Outro objetivo dos organizadores dos eventos paralelos foi alertar a população a respeito da ação do BID no Ceará. “Com a ajuda de alguns órgãos de imprensa, conseguimos mostrar os desmandos do governo de Tasso Jereissatti no estado. A falsa imagem de prosperidade do Ceará – sustentada pela grande mídia, pela ação da polícia, pelo controle de funcionários estaduais e pela ausência de diálogo - foi superada. O estado se tornou um laboratório de experiências de instituições financeiras multilaterais”, disse Magnólia.

Os indicadores sociais são uma dessas “evidências” citadas pela coordenadora da Rede Brasil. “O BID já destinou US$ 1,39 bilhões para o desenvolvimento turístico apenas do Ceará. Apesar do aumento de empregos, o dinheiro liberado pelo banco não conseguiu fazer com que os indicadores sociais do Estado melhorassem”, lembra Roque Melo, presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT) do Ceará, que também participou da agenda dos movimentos sociais.

Para os representantes da sociedade civil, porém, a conquista mais importante foi a reafirmação da agenda política internacional de protestos contra as instituições multilaterais. “Houve uma grande participação da juventude nas manifestações em Fortaleza, reforçando as bandeiras levantadas em Seattle e reafirmadas no Fórum Social Mundial de Porto Alegre”, destaca Magnólia. “Se a reunião do BID prestou algum serviço para a população, foi esse”.Insatisfação vem até mesmo de dentro da instituição.

Se o grito das ruas foi abafado por cordões de isolamento de policiais nas ruas de Fortaleza, as críticas feitas ao BID nos próprios eventos oficiais foram ouvidas em alto e bom som. Eduardo Lora, principal consultor do Departamento de Pesquisa do BID, concluiu, em uma das reuniões, que se de fato houve algum efeito de crescimento econômico na América Latina e Caribe associado à onda de reformas pró-mercado da década de 90, ele foi modesto, temporário e piorou a distribuição de renda.

O consultor mostrou também que a insatisfação da população dos vários países da América Latina e do Caribe com as reformas é generalizada. A pesquisa de opinião do Latinbarometer, feita em 17 países da região, atestou que dois em cada três entrevistados achavam que as condições de seu país eram ruins ou muito ruins; três em cada quatro acreditavam que a pobreza tinha aumentado nos últimos cinco anos e apenas um via a perspectivas de melhora no futuro. Na mesma pesquisa, 64% dos consultados afirmaram que a privatização não é boa para seus respectivos países.

Pressionado por países financiadores sócios do BID, como Holanda, Alemanha, Inglaterra e Japão, o BID começou uma revisão interna e deve lançar, ainda este ano, um “plano de ação de melhoramento” para enfrentar problemas nas carteiras de empréstimo. Um relatório reservado do banco, comentado pelos participantes do encontro, mostrou que os empréstimos do BID têm “deficiências consideráveis” de promover o desenvolvimento.Cibercafé gratuito foi base para cobertura jornalística independente

Um cibercafé gratuito foi colocado à disposição de todos os que quisessem publicar textos, fotos, sons e imagens de vídeo, durante a Reunião do BID, em Fortaleza. A iniciativa foi do Centro de Mídia Independente (CMI)(www.midiaindependente.org), braço brasileiro da rede internacional Indymedia (www.indymedia.org).

“Odeia aos meios (de comunicação)? Transforme-se neles”, afirmava a propaganda divulgada pelo CMI, que apoiou abertamente da agenda paralela ao encontro oficial do BID, pela capital cearense.

A organização participou de protestos e organizou seminários críticos aos programas de ajuste dos organismos multilaterais e contra a Área de Livre Comércio das Américas (Alca).