Rede Brasil debate o tema 'Raça e Desenvolvimento':
A Rede Brasil sobre Instituições Financeiras Multilaterais organizou um debate sobre Raça e Desenvolvimento, no dia 17 de maio, na sala de reuniões do INESC.

O debate ocorreu pela manhã, com a presença do editor do Jornal Irohin, Edson Lopes Cardoso, da coordenadora da Área de Articulação Política e Direitos Humanos da ONG Fala Preta, Deise Benedito e Ronaldo Santos, do Movimento Quilombolas.

A abertura do debate foi realizado por Magnolia Said, da Coordenação da Rede Brasil, que pontuou como um novo elemento fundamental para a Rede Brasil a questão de gênero / raça que não é trabalhada dentro das IFI’s. Para ela, essa questão traz o pensamento do desenvolvimento. “As ONG’s não colocam essa lente quando olham para essa temática. Este debate ajudará na superação desta dificuldade”, concluiu.
Edson Lopes falou sobre a superação das desigualdades raciais no sentido de pressionar as Instituições Financeiras Multilaterais para que incluam nos seus programas os estudos de impactos no que diz respeito as desigualdades sociais. Abordou também a questão da ausência dos negros na imprensa brasileira. “A única mulher negra a escrever é a Suely Carneiro, no Jornal Correio Braziliense, em Brasília. E a imprensa negra existe desde 1833”. Para ele, a inteligência negra feminina não é revelada.

 
Edson Lopes durante o debate sobre Raça e Desenvolvimento

Edson falou ainda sobre o mito da democracia racial. “Não se faz uma reflexão sobre o que é o racismo e suas conseqüências. O que cria a desigualdade racial são realidade dadas e não realidades criadas. As práticas sociais e o cotidiano são os que reproduzem estes dados. Ninguém nasce racista, as pessoas aprendem o racismo”, explica.
Deveríamos ensinar às crianças contra o racismo nas escolas, da mesma forma que ensina-se sobre como atravessar as ruas etc. A mesma criança que aprende a atravessar a rua, aprende o que é o racismo. Devemos educar contra o racismo”

Para Edson, o racismo é a negação da humanidade do outro. “Sinais de humanidade e de direitos é ter cabelos lisos e pele clara”, pergunta o editor, que exemplifica ainda a negação da humanidade com a animalização do negro.
Deise Benedito, coordenadora da Área de Articulação Política e Direitos Humanos da ONG Fala Preta participou do debate e abordou a evolução da história das mulheres negras no Brasil, desde a escravidão até os dias de hoje.
Segundo ela, as mulheres negras eram desumanizadas, propriedade e objetos, e a religião era o espaço de resistência dos negros. O maior problemas para as mulheres negras foi o dia 14 de maio, após a abolição, que de acordo com Deise, os negros ficaram sem saber o que fazer. e as mulheres negras encontraram como saída para o seu sustento o trabalho doméstico.


Deise Benedito, da ONG  Fala Preta

Em 1950, foi criado o Conselho Nacional das Mulheres Negras.
Em 1980, as mulheres negras começaram a discutir a discriminação, principalmente no mercado de trabalho.
Em 1990, foi criado a Organização da Mulheres Negras, período em que as mulheres negras conseguiram um salto positivo em suas conquistas. Sairam da denúncia somente, e encaminharam para as propostas.
Segundo Deise, as resistências continuam, com por exemplo: mais de 60% das mulheres negras são empregadas domésticas e 64% das mulheres que escrevem em jornais tem mestrado e doutorado, mas não são absolvidas.

O representante do Movimento Quilombola, Ronaldo dos Santos, defende o símbolo de luta remanescente de quilombo, e afirma que o quilombo é o território sagrado de resistência. “ O movimento quilombola segue uma história de luta. Lutamos contra àqueles que negam que somos um benefício à sociedade”, concluiu Ronaldo.


Ronaldo da Silva, representante do Movimento Quilombola

O economista Marcelo Paixão também esteve presente no debate. Expôs sobre ‘As desigualdades raciais no Brasil: análise de indicadores quantitativos e qualitativos. Segundo ele, o Brasil foi o maior importador de escravizados africanos das Américas entre os séculos XVI e XIX, o último país das Américas a acabar com a escravidão e abriga a segunda maior população negra do Planeta – 75 milhões de pretos e pardos.

Marcelo disse ainda que o sistema democrático pressupõe uma sociedade de iguais do ponto de vista jurídico e do acesso às oportunidades de mobilidade social. “Os negros, ainda hoje, em sua maioria, estão distantes dos instrumentos de representação política e jurídica”, diz.

 
Marcelo Paixão em sua palestra para a Rede Brasil

O economista cita em seu discurso um trecho de uma obra escrita em pleno otimismo de meados da década de 1950, sobre o futuro racial da população brasileira, de Fernando Azevedo: “(a) admitir-se que continuem negros e índios a desaparecer, tanto nas diluições sucessivas de sangue branco, como pelo progresso constante de seleção biológica e social e desde que não seja estancada a imigração sobretudo de origem mediterrânea, o homem branco não só terá, no Brasil, o seu maior campo de experiência e de cultura nos trópicos, mas poderá recolher à velha Europa – cidadela de raça branca -, antes que passe a outras mãos, o facho de civilização ocidental que os brasileiros emprestarão uma luz nova e intensa, - a da atmosfera de sua própria civilização”.

Veja a apresentação do economista Marcelo Paixão




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