O
surto nacionalista da mídia brasileira em relação
aos recentes decretos do presidente Evo Morales traz a oportunidade
de um debate estrategicamente escondido do público. Trata-se
de observar que a onda neoliberal, que tanto afetou a vida de
brasileiros e brasileiras nas últimas décadas, também
alterou a forma como o Estado brasileiro cumpre a sua tradicional
função subimperialista na América Latina. Bem
adequados às estratégias traçadas pelas agências
multilaterais (FMI, BIRD, BID etc.) controladas pelos Estados Unidos,
o BNDES e a Petrobrás (para ficar em apenas dois exemplos)
ganham uma nova dimensão no novo arranjo geopolítico
que envolve os planos de integração regional das
Américas.
Esse tema foi discutido em duas oficinas
organizadas pelo IBASE que tive a oportunidade de participar no II
Fórum Social Brasileiro realizado recentemente em Recife.
Naquela oportunidade pude conhecer mais de perto o trabalho de
algumas pesquisadoras latino-americanas, que debatem a Agenda
Pós-Neoliberal e outras que fazem parte da Rede Brasil sobre
Instituições Financeiras Multilaterais, e tento
descrever aqui um pouco desses debates, a partir do que pude absorver
das discussões. Com isso, penso contribuir para um outro olhar
sobre o papel do Brasil na América Latina e, também,
sobre quais são mesmo os interesses defendidos pela mídia
quando ataca as iniciativas do governo boliviano, que busca
nacionalizar a utilização dos recursos naturais de seu
país.
Posso adiantar que, no caso do atual imbróglio
diplomático com a Bolívia, quando a mídia cobra
do governo brasileiro uma defesa mais incisiva dos interesses do
Brasil , na verdade põe em marcha uma campanha advogando
os interesses de grandes multinacionais que atualmente operam aqui e
naquele país.
Questões centrais em debate
Os elementos chaves desse debate se constituem na crítica
ao que comumente tem sido difundida como a única possibilidade
de desenvolvimento para os países da América Latina: a
Integração Regional das Américas. Essa questão
foi muito bem abordada nos debates do II Fórum Social
Brasileiro, que contou, por exemplo, com a advogada Magnólia
Said, da Coordenação Executiva da Rede Brasil sobre
Instituições Financeiras Multilaterais, que logo de
início deixou nítida sua posição de que
boa parte dos governos progressistas na América Latina mantém
a agenda fundada na especulação e no rentismo
internacional, o que impede a possibilidade de desenvolvimento
soberano de seus respectivos países. A subordinação
da política externa de países como o Brasil, que possui
uma dimensão estratégica na região, aos planos
definidos nas agências internacionais de fomento, determina um
quadro de transferência de riquezas com base no extrativismo
dos recursos naturais, na superexploração do trabalho e
na degradação ambiental, com repercussões
dramáticas sobre a vida social.
As iniciativas para a
integração das Américas, propostas pelas
agências multilaterais estão articuladas pela
intervenção de várias instituições,
no sentido de criar as condições para uma divisão
internacional do trabalho, controlada pelas nações do
centro imperialista, assentadas nos seguintes eixos básicos:
a)
A base da intervenção está planejada numa agenda
de integração física, infra-estrutural, centrada
em grandes projetos de transportes, energia e telecomunicações,
que permita a livre circulação de mercadorias entre
vários pontos do território latino-americano, numa rede
de inter-relações voltada para a produção
de insumos básicos e para a montagem de produtos finais
pré-fabricados e destinados à exportação;
b) Fomento aos investimentos privados, especialmente, na
produção siderúrgica e mineral, assim como na
produção de alimentos e insumos básicos
controlados pelas multinacionais do agronegócio exportador
(celulose, soja, entre outros);
c) Controle sobre a Amazônia
e demais florestas tropicais, que possuem reservas hídricas,
grande biodiversidade e importantes jazidas minerais.
Magnólia
Said chamou a atenção para um dos planos mais
audaciosos colocados em marcha com financiamento do BID (Banco
Interamericano de Desenvolvimento) e do Banco Mundial (BIRD) para
intervenção em diversos países da região.
Trata-se da Iniciativa de Integração da Infra-Estrutura
Regional da América do Sul (ver: IIRSA),
tida pela pesquisadora como um caminho alternativo para se chegar à
ALCA (Área de Livre Comércio das Américas),
enquanto são negociados os condicionantes colocados para sua
realização definitiva. A IIRSA seria a versão
sul-americana do Plano Puebla-Panamá (PPP), colocado em
prática com vistas à integração
infra-estrutural da América Central. A implantação
de bases militares estadunidenses na América do Sul
coincidiria com os projetos de implantação da IIRSA,
avalia Said. Iniciativas que, se bem articuladas e efetivamente
realizadas, comporão os elementos chaves para a consolidação
da ALCA no longo prazo.
Uma cartilha distribuída nas oficinas reflete a dimensão da IIRSA neste momento estratégico de definições sobre o futuro da América Latina:
A
IIRSA seria implementada dentro de uma nova concepção
de integração regional denominada pelo BID de “novo
regionalismo”, baseado no mercado externo, com as seguintes
características: abertura para os mercados mundiais; promoção
da iniciativa privada; e a retirada do Estado da responsabilidade com
a atividade econômica direta. Para esse novo regionalismo se
concretizar fazia-se fundamental um continente com sua
infra-estrutura física integrada (SAID, 2005, p. 33).
Também
mereceu a atenção a assertiva sobre as plataformas
brasileiras para implantação do plano de integração
em nível regional. “A Petrobrás é uma
plataforma fundamental na implantação da IIRSA” .
A abertura do capital da estatal brasileira do petróleo
levou-a a operar como uma grande concorrente multinacional da
indústria petroleira na região. Na defesa dos
interesses de seus acionistas, nacionais e estrangeiros (O Estado
Brasileiro, apesar de manter pouco mais da metade das ações
com direito a voto, detém apenas 32,2% do capital social total
da Petrobrás após sua privatização
parcial), a Petrobrás tem expandido sua atuação
regional, como qualquer outra empresa privada, inclusive deixando de
cumprir em outros países os condicionantes ambientais que o
Estado Brasileiro exige nas operações com petróleo
e gás natural aqui no Brasil.
Cabe aqui destacar o
caso do Equador, sobre os conflitos gerados pela Petrobrás com
as comunidades indígenas, pois boa parte de suas operações
ocorrem dentro da Reserva da Biosfera Yasuní.
Está
casi enteramente en la Reserva de la Biosfera Yasuní ,
afectando tanto al Parque Nacional yasuní, como a la Reserva
Étnica Huaorani. Limita en su parte sur con la zona
intangible, y parte del Bloque constituye territorio de migración
de las comunidades indígenas sin contacto Tagaeri y Taromenani
Con fecha 25 de agosto del 2004, y coincidiendo con la llegada del
Presidente de Brasil, Luis Inacio Lula da Silva, el Ministerio del
Ambiente otorgó uma Licencia Ambiental a la empresa nacional
brasileña Petrobrás, para la fase constructiva del
proyecto para el Desarrollo y Producción del Bloque 31, a
través de los campos Nenke y Apaika, la misma que debía
sujetarse al Estudio de 20 Impacto Ambiental (EIA) y Plan de Manejo
Ambiental aprobado. El EIA fue aprobado a pesar de las terribles
falencias que tenía, y que lo hacía completamente
inaceptable, especialmente si pensamos que iba a ser aplicado en una
zona de extrema fragilidad ecológica. Posteriormente, en marzo
del 2005, se otorga una nueva licencia ambiental a Petrobrás,
esta vez para que pueda talar más de 20 mil metros cúbicos
de árboles, procedentes de los bosques vírgenes del
Yasuní, para que la empresa pueda abrir sus carreteras y vías
de acceso, y construya dos plataformas petroleras, de cada una de las
cuales se perforarán 12 pozos para extraer el crudo de las
entrañas del Yasuní. Se le cobra por destruir esta zona
del Yasuní, la irrisoria cantidad de 60.000 dólares. El
Bloque 31 se encuentra en el corazón del Parque Nacional
Yasuní. El propio EIA reconoce que la carretera y oleoducto
que pretende construir Petrobrás atravesará bosque
maduro sobre colinas, llanuras aluviales, atraviesa 8 cruces de ríos,
110 pantanos. Esta ruta es la que posee mayor biodiversidad tanto de
fauna como de flora. Contiene varias especies endémicas y en
peligro (OILWATCH, 2005, p. 19).
Outra
plataforma brasileira importante citada por Said tem sido a
construção de grandes barragens para a produção
de energia, envolvendo grandes empreiteiras e financiamento de várias
agências de fomento, inclusive o BNDES. Além de
financiar grandes projetos de construção da
infra-estrutura no Brasil, o BNDES tem emprestado grandes volumes de
recursos nos acordos bilaterais com países da região,
exigindo nos contratos a participação de grandes
empreiteiras, como a Queirós Galvão e a ODEBRECHT entre
outras multinacionais.
Uma outra cartilha (REDE BRASIL, 2006)
distribuída nas oficinas retrata os compromissos
internacionais e o papel desempenhado pelo BNDES em relação
à IIRSA. A cartilha informa que o BNDES é financiado
pelo BIRD e pelo BID e, também, por bancos estatais
estrangeiros, do Japão, da Alemanha, entre outros países.
Como não há de se esperar que estas linhas externas de
financiamento tenham um caráter filantrópico, ainda
mais quando se trata de competição entre grandes blocos
de capital, não fica difícil de imaginar (o banco
público de fomento não tem sido transparente o
suficiente para que se possa aferir precisamente suas principais
operações) o papel estratégico do BNDES na
realização dos projetos que são orientados pelas
agências multilaterais ou mesmo por agências oficias das
grandes potências mundiais.
No
âmbito regional, o BNDES tem relações
estratégicas com fundos tais como a Corporación Andina
de Fomento (CAF). Esta entidade é uma instituição
financeira multilateral com sede em Caracas, na Venezuela, que
objetiva apoiar o desenvolvimento e a integração física
dos países membros. No final de 2005, o BNDES e a CAF
assinaram um memorando de atuação conjunta, com base no
qual poderão co-financiar projetos em 17 países da
América do Sul e Caribe. Esta parceria se revela estratégica
para a alavancagem de projetos de infra-estrutura (energia,
transportes, hidrovias) no âmbito da chamada Iniciativa para a
Integração da Infra-estrutura Regional Sulamericana
(IIRSA). Vários dos projetos sob a IIRSA se adequam a um
modelo predatório de exploração de recursos
naturais para exportação, franqueando a mercados
estrangeiros o acesso a riquezas, frequentemente destruindo o meio
ambiente e a vida de comunidades e em nada contribuindo para o
desenvolvimento social e ambientalmente sustentável (REDE
BRASIL, 2005, p.18).
Por
uma outra integração
Solidariedade
internacional pode combinar com algum modelo de integração?
Vendo a coisa da forma descrita anteriormente, percebe-se que o atual
discurso da mídia, que clama ao governo federal que resguarde
os interesses do Brasil nas negociações com a Bolívia,
nada tem a ver de fato com o apego à nacionalidade e muito
menos com a ação diligente da imprensa nacional na
proteção dos direitos do povo brasileiro. Trata-se, na
verdade, de cobrar que o Estado nacional capitalista cumpra as
funções que sua própria natureza lhe impõe,
especialmente aquela de garante do processo de acumulação,
mesmo diante de todas as suas contradições.
Considerando a posição subordinada do desenvolvimento
capitalista no Brasil, essa função primordial da
acumulação exige também a garantia de
perpetuação da transferência de riquezas para os
grandes centros imperialistas, inclusive em forma de lucros, de juros
ou em outras formas renda. Dada a dimensão estratégica
do Brasil na América Latina, adiciona-se às funções
acima a de servir de correia de transmissão para a realização
do imperialismo em toda essa região do planeta, contribuindo
para a subordinação da soberania de cada uma das nações
latino-americanas aos interesses do grande capital. Aqui não
cabe pensar em qualquer forma de solidariedade.
Parodiando
Cláudio Katz, para que outra integração regional
seja possível o socialismo é necessário. Pensar
numa integração globalizante, fundada no
desenvolvimento ambientalmente sustentável, nos direitos
humanos, na emancipação de gênero, no direito à
imigração, nos direitos dos povos indígenas e
quilombolas, enfim, no direito à livre manifestação
da diversidade cultural que tanto orgulha à América
Latina, pressupõe a superação das relações
fundamentais, que mantêm esses povos vinculados ao regime
mercantil da exploração do trabalho.
Referências
OILWATCH. Explotación petrolera em la reserva
de la biofesra Yasuní . Disponível em <
www.oilwatch.org
>. Acesso em 09
mai. 2006.
REDE BRASIL SOBRE INSTITUIÇÕES
FINANCEIRAS MULTILATERAIS. O BNDES visto pela sociedade civil
Brasília : REDE BRASIL, 2006.
SAID, Magnólia.
FMI, Banco Mundial e BID: impactos sobre a vida das populações
. Fortaleza : [s.n.], 2005.
* Helder Gomes, mestre em economia/UFES, consultor da COOPEMULT CONSULTORIA

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