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Papo Reto com Reinaldo Gonçalves

作者:Rede Brasil 上次修改时间: 2010-03-02 13:02

Em sua primeira edição, Contra Corrente Virtual traz uma entrevista com Reinaldo Gonçalves, professor titular de Economia Internacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Sempre crítico, Gonçalves desmonta o argumento que o Brasil ocupa um papel de destaque no novo cenário financeiro internacional.

 

No início deste ano, o Brasil injetou 10 bilhões de dólares no FMI. Recentemente, o Ministro do Planejamento, Paulo Bernardo, anunciou que o Brasil emprestará outros 10 bilhões de dólares ao BID. O Brasil tem uma nova estratégia de inserção internacional?

Eu diria que o Brasil tem uma posição reativa à reestruturação do sistema financeiro internacional. Uma estratégia pressupõe ter um objetivo claro e desenvolver táticas para atingir este objetivo. O governo federal atual, portanto, não tem uma estratégia, mas apenas reage às mudanças no cenário internacional. Por exemplo, esta contribuição de 10 bilhões de dólares ao FMI foi praticamente uma exigência dos governos dos países avançados para os países em desenvolvimento que acumularam reservas nos últimos anos, no sentido de dividir os prejuízos decorrentes da crise. É como se o Brasil tivesse pagando um pedágio para entrar no G20. Pagando para ter uma voz, mesmo que ainda muito tímida no G20. Esta foi a demanda, a pressão feita pelos EUA e pelos países da Europa na convocação ao Brasil para participar do encontro do G20, em março do ano passado. Ou seja, quem quer participar, tem que pagar, tem que contribuir e reforçar o caixa dos organismos financeiros internacionais.

 

 

A sociedade brasileira tem razões para comemorar essa postura do Brasil no cenário internacional? Ou seja, concretamente, isso significa um avanço na qualidade de vida da população?

Não, trata-se de uma posição passiva. E se houvesse uma estratégia, ela teria uma posição equivocada. Estes recursos colocados pelo Brasil nas instituições financeiras, como o FMI, não têm benefícios diretos para o Brasil. Tirando o grande marketing do corpo diplomático, que não tem nenhuma importância para a sociedade, o custo-oportunidade para o Brasil é muito alto. Esses recursos poderiam ser aplicados em investimentos internamente. Ao mandar esses recursos para fora, o País deixa de mobilizar recursos reais na economia brasileira, deixa de gerar renda, emprego e mais recursos. Portanto, a gente deveria ficar triste quando o Brasil investe recursos nessas instituições, ainda mais considerando que o custo de gerar 10 bilhões de dólares é muito alto para o País, pois é necessário emitir títulos públicos e pagar juros muito altos. Dez bilhões de dólares no Brasil podem mobilizar vinte, talvez até trinta, bilhões na economia. Imagina o que significa investir este aporte na área de saneamento, educação, saúde, ou seja, na construção de hospitais, etc. O Brasil é um país onde os recursos financeiros são escassos, o dólar é escasso. Trata-se de um erro grave na alocação dos recursos. Os brasileiros certamente perdem muito com essa opção.

 

Qual o papel do Brasil neste novo cenário de reestruturação do sistema financeiro?

O Brasil não tem nenhum papel importante no sistema financeiro internacional. O Brasil tem como característica marcante uma altíssima vulnerabilidade externa na esfera financeira, além de uma volatilidade muito grande. Portanto, não tem como ter este papel. É preciso considerar que nós ainda continuamos como produtores de commodities para o mercado mundial. Nosso papel é muito passivo no sistema financeiro. Nós somos tomadores líquidos de recursos no cenário internacional. Me refiro não só à dívida externa, mas também aos investimentos em carteira, aos investimentos estrangeiros de bolsa. O Brasil não é um fornecedor de poupança externa, nossa moeda não existe no cenário internacional e, como disse, nosso passivo externo é altamente elevado. Tudo isso demonstra que o País não tem peso no sistema monetário, nem financeiro.

 

 

Está havendo, de fato, uma mudança das IFIs, no sentido de reverem e até abandonarem algumas ortodoxias antigas e arraigadas?

De fato, ocorrem mudanças atualmente na conduta das IFIs. Mas é preciso observar que, primeiro, são mudanças meramente conjunturais, temporárias e que vêm em resposta à recente crise global. Segundo, da mesma forma que ocorreu a reversão da liberalização financeira e uma mudança no comportamento de instituições, como o FMI, justamente como uma reação das instituições e governos frente à crise, ocorrerá a interrupção destas mudanças. Ou seja, quanto antes a crise sair do cenário internacional, mais rapidamente será interrompida a reversão da liberalização, e as instituições financeiras voltarão a exercer o mesmo papel de antes, de importantes instrumentos econômicos dos países desenvolvidos para dar estabilidade, gerar ajustes e enquadrar os países que têm problemas, promovendo ajustes deletérios. O novo papel é o velho papel. Não tem novidade. Portanto, é uma ilusão acreditar que essas pequenas mudanças de conduta serão permanentes, elas não significam uma mudança de natureza, mas simplesmente uma mudança de conduta adequada a uma determinada circunstância.

 

O Brasil continua resistindo em aportar para a construção do Banco do Sul, uma iniciativa que tem como pressuposto o fortalecimento econômico e político dos países sul-americanos. O que significa isso?

Este é um bom exemplo. O fato do Brasil continuar criando obstáculos para essa iniciativa mostra como o Brasil está submetido a uma política econômica externa. Se você tivesse uma política estratégica independente, criaria instrumentos próprios de maior autonomia na área monetária. Faria tudo para enfraquecer o BID, o Banco Mundial, o FMI e fortalecer outras iniciativas de natureza diferente dessas organizações. O Brasil faz o contrário: cria obstáculos para organizações que deveria apoiar e reforma as que tem uma natureza que deveriam ser combatidas. Isso é um fato. A conclusão é que o Brasil não tem uma estratégia ativa de inserção no sistema econômico internacional. O que existe é uma alegoria, uma projeção, uma inserção da pessoa do presidente Lula, não um projeto.